OSSOS DO OFÍCIO
O setor jornalístico brasileiro finge surpresa e estupefação após a recente divulgação da carta de um ex-jornalista da Rede Globo que, revoltado pela não renovação de seu contrato, resolveu pôr a boca no mundo e contar o que todos já sabiam: que a mídia brasileira é completamente manipulada.
O repórter Rodrigo Vianna, em sua carta, joga a sujeira no ventilador e acusa o núcleo jornalístico da Rede Globo de manipular informações durantes as últimas eleições a favor do PSDB e em detrimento do PT - o que, aparentemente, foi um esforço inútil. A carta é extensa, para lê-la, clique no link do primeiro parágrafo. Mas gostaria de comentar alguns pontos do texto de Vianna:
"Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto".
• Desculpe, mas não sei de quem você está falando. O tal "fulano" pode ser mil pessoas que me vêm à cabeça. Já que a carta possui cunho de desabafo e denúncia, por que não dar nomes aos bois?
"Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, vocês sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas desagradáveis".
• Mais um personagem oculto, o "diretor-vocês-sabem-quem". Novamente, por que não tornar público os responsáveis? Fica a pergunta: Se a intenção era derrubar o PT, por que a Globo nunca questionou a fundo os membros do partido sobre o Foro de São Paulo, sendo que a simples tentativa de explicar a existência desse órgão colocaria por terra muitas candidaturas?
"Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal (...), a caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira. Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agência de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano".
• Salutar contato com a desigualdade, enquanto o escritório da Berrini é desumano? Isso me cheira à velha demagogia de que "pobre é bom, rico é ruim". A evolução parece gerar horror em certas pessoas. Por que a mudança de ambiente seria nociva para Vianna se ele passava a maior parte do tempo na rua, fazendo reportagens?
Eu não duvido da veracidade da carta, mas, para mim, ela não revela nada de mais. Ou, pelo menos, nenhuma novidade. Só acho que, se era pra chutar o pau da barraca, deveria ser mais incisiva, afinal, desgraça pouca é bobagem. Se ele for processado pela Globo, então que seja por acusações realmente chocantes.
Muitas pessoas enxergam o jornalismo como uma profissão quase sacerdotal (inclusive os próprios jornalistas), mas, na verdade, ela é apenas isso: uma profissão. Há deveres, responsabilidades, obrigações, benefícios e recompensas como qualquer outra. Certa vez, fui fazer um plano dentário e a moça que preenchia a ficha perguntou minha profissão. Ao saber que eu era jornalista, ela começou um escândalo na sala, fazendo questão de dizer para todo mundo que havia um jornalista ali. E eu querendo me enfiar debaixo da mesa. Pra que tudo aquilo?
Dá-se mais valor à profissão do que ao caráter, como se o fato de ser um engenheiro ou advogado tornasse a pessoa um ser superior. Claro que existe o status e o reconhecimento, mas isso jamais deve subir à cabeça. "Títulos são distinções para quem não tem nenhuma outra", dizia um antigo ditado oriental.
Não existe profissão alguma sobre a face da terra que obrigue uma pessoa a ser justa, honesta e imparcial. Essas qualidades são inerentes ao caráter individual de cada um, que acabam refletidas no dia-a-dia, independente da profissão. Mas o oposto não ocorre, ou seja, a profissão não influencia no caráter. Do contrário, jamais existiriam maus médicos, advogados ou policiais.
Se estou em um ambiente de corrupção, tenho duas alternativas: ou me torno corrupto também (revelando o mau caráter latente); ou simplesmente saio desse ambiente por me sentir incompatível. "Ah, mas se eu não aceitasse aquela condição, perderia o emprego, e tenho contas para pagar", dirá você em autodefesa. Sim, mas perceba que a escolha foi sua, pois, ainda que sob coação, sempre existirá a opção do "não". Cabe a cada um de nós saber onde pesa a consciência. Há deslizes e enganos, claro, e eu mesmo já fiz coisas de que me arrependi. Mas que me serviram de escola para não cair no mesmo truque novamente.
Voltando ao desabafo de Vianna, cito o jornalista Heródoto Barbeiro: "Não existe imparcialidade na nossa profissão. O jornalista é sempre parcial, porque ele não consegue descrever os fatos sem colocar uma dose do que ele pensa, do que ele sente". Heródoto diferencia imparcialidade de isenção e diz que o jornalista não pode aceitar falar mentiras ou manipular a informação. "Se a empresa me manda dizer uma mentira e eu concordo, sou tão responsável quanto ela".
Rodrigo Vianna entrou na Rede Globo em 1995, por isso, participou da cobertura de duas eleições antes da deste ano - 1998, com FHC sendo reeleito; e 2002, com a vitória de Lula. Vianna trabalhou quase doze anos na Globo e só nesta última eleição veio a perceber a manipulação de informações?
Vianna diz que não apresentou esta carta antes porque tem um contrato em vigência com a Rede Globo até janeiro de 2007. Caso apresentasse a carta antes teria que pagar uma multa de mais de R$ 800 mil. Ele não pediu demissão, nem foi demitido, foi avisado de que seu contrato não seria renovado. Só depois de avisado, tornou pública a carta que já estava pronta. Teria Vianna publicado a carta caso seu contrato fosse renovado?
Heródoto Barbeiro pode ter a resposta: "O jornalista tem de estar preparado para colocar o seu emprego à disposição toda vez que tiver um conflito de consciência".
Publicado em 21/12/2006 no blog Hot Rod's Café
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