ANTIAMERICANISMO NO AUTOMOBILISMO
Entre minhas diversas facetas profissionais, assumi um manto de jornalista esportivo, escrevendo para um site a respeito das principais categorias de esportes a motor. Confesso que essa está longe de ser a minha praia, mas conforme fui entendendo melhor esse mundo, adquiri certo gosto pela coisa. Mas não é exatamente sobre isso que vou falar.
Estive no dia 09/11 num almoço realizado para a imprensa pela BMW, onde a empresa anunciou que o piloto brasileiro Mario Haberfeld abrirá a oportunidade para jovens pilotos brasileiros de kart correrem nos Estados Unidos na Fórmula BMW, uma importante categoria monomarca. Haberfeld, que já foi piloto de testes da McLaren na F-1, está montando uma equipe nos EUA e vai incluir pilotos brasileiros no grupo. Sem dúvida, uma oportunidade única para quem deseja seguir carreira no automobilismo. E uma oportunidade para os kartódromos aumentarem seus clientes, já que agora haverá olheiros de pilotos presentes nas competições.
Você já tinha ouvido falar na Fórmula BMW? Nem eu. Pelo menos, até ontem. E se depender dos jornalistas brasileiros, ela continuará no anonimato. Por quê? Porque a equipe será montada nos EUA. Percebi isso no momento em que o próprio Mario Haberfeld disse que a Fórmula 1 (Europa) está cada vez mais fechada, enquanto os Estados Unidos são muito receptivos a novos pilotos. Os jornalistas presentes logo se armaram do estúpido antiamericanismo e levantaram questionamentos sobre os americanos discriminarem a Fórmula 1 e que pilotos com carreiras nos EUA dificilmente fariam sucesso na Europa.
Haberfeld contra-atacou dizendo que os pilotos brasileiros deveriam encarar os campeonatos norte-americanos com mais seriedade, pois as oportunidades de sucesso lá são maiores devido à diversidade, enquanto a Europa limitou-se à F-1, o que reduz a chance do novato e pode gerar frustração.
Pelas próprias palavras de Haberfeld: "As chances de se entrar na F-1 são uma em um milhão, e novamente uma em um milhão para se ter o sucesso de um Michael Schumacher. Nos EUA, você pode ser um bom piloto e alcançar o sucesso mais facilmente, podendo ganhar U$ 2 milhões por ano e, quando tiver estrutura, pode tentar a F-1." Dois milhões de dólares por ano dá cerca de R$ 334 mil mensais. Você conseguiria viver com um salário desses?
Hoje olhei os sites de automobilismo para ver os comentários dos outros jornalistas. Como esperava, disseram apenas que Mario e a Fórmula BMW estavam dando oportunidades aos pilotos brasileiros. Nenhuma menção à facilidade e receptividade americana. Estiveram lá, comeram (e muito bem) de graça e publicaram apenas uma nota sobre o evento. Quando era jornalista na área de tecnologia, o mínimo que eu podia fazer era escrever matérias mais completas para ajudar na divulgação das empresas (quando o assunto merecia destaque).
É engraçado ver todo mundo falar mal dos EUA, mas se aproveitar de todos os benefícios que os "imperialistas" oferecem (afinal, o almoço de ontem foi pago por eles). Os brasileiros atribuem a si mesmos um valor exagerado. Encaremos os fatos, somos um país de terceiro mundo (com um povo de quinta categoria) e pelos próximos quatro anos não há expectativas de mudança nesse quadro. Em vez de nos espelharmos nos povos que alcançaram sucesso, preferimos atirar-lhes pedras - é mais cômodo do que trabalhar e evoluir.
E há aqueles que esperam, cedo ou tarde, uma invasão dos americanos. Vivem pregando o apocalipse do Tio Sam como se, a qualquer momento, um mariner fosse entrar pela sua janela e matá-lo sufocado com um Big Mac. Sim, a idéia é ridícula, mas muitos acreditam nessa possibilidade.
A importância que o Brasil tem para os Estados Unidos é a mesma que o primo do parente do amigo da avó do seu vizinho tem para você: nenhuma. Os americanos não estão nem aí para saber se o Brasil é a capital de Buenos Aires ou se aqui as pessoas caçam onças para comer. E fazem muito bem. O dia que formos um povo civilizado, educado, com uma economia forte e capaz de conversar com potências de igual para igual, é possível que os EUA nos olhem com mais atenção. O comentário em podcast do escritor Olavo de Carvalho, que atualmente vive em Washington, deixa claro que mesmo que o Brasil sofra um Golpe de Estado, os americanos não moverão um dedo para fazer coisa alguma a respeito.
E mesmo assim, temos exemplos de sucesso de brasileiros nos Estados Unidos, como é o caso dos desenhistas de histórias em quadrinhos. Muitos se tornaram celebridades e ganham um bom dinheiro (mais do que o salário de um executivo) desenhando para as editoras americanas. Conquistaram seu lugar ao sol porque trabalharam duro e mostraram profissionalismo, em vez de ficar criticando.
É por isso que a iniciativa do piloto Mario Haberfeld deve ser encarada como uma boa oportunidade para quem busca o sucesso. Em minha matéria sobre o evento, não omiti absolutamente nada.
Publicado em 11/10/2006 no blog Hot Rod's Café
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