DUAS MOEDAS


"Viviam em uma cidade um velho sábio e seus discípulos, em um constante processo de aprendizado - o sábio ensinava, os discípulos aprendiam.

Desejando ampliar suas capacidades e tornar-se o melhor entre os alunos, um jovem discípulo decidiu que aprenderia a caminhar sobre as águas. Para isso, resolveu afastar-se de tudo e retirou-se para um auto-exílio no meio da floresta.

E assim, isolado, dedicou todo o seu tempo a atingir esse objetivo. Aos poucos, o jovem foi obtendo êxito. Dois anos se passaram e ele conseguiu concretizar seu propósito. Irradiante, o discípulo retornou à cidade para demonstrar o feito. Ao avistar o velho sábio, gritou entusiasmado:

- Mestre! Mestre! Por dois anos estive empenhado em aprender a andar sobre as águas. Veja agora o resultado.

Assim dizendo, o jovem discípulo caminhou sobre um rio ali próximo, andando de uma margem à outra. Vendo tal demonstração, o sábio respondeu-lhe:

- Tolo! Desperdiçaste dois preciosos anos da sua vida para aprender a fazer uma coisa que, por duas moedas, qualquer barqueiro daqui pode fazer!
"

Li essa pequena história há muito tempo e, vira e mexe, ela me volta à mente, fazendo-me refletir sobre o que realmente vale a pena aprender, por mais fantástico que aquilo que se aprende possa parecer.

Essa história também me faz rir ao ver os defensores do Linux, por exemplo, citarem as "vantagens" desse sistema operacional sobre o Windows. Com a desculpa de que "arrastar mouse" é muito fácil, eles exibem intermináveis linhas de código que precisam ser digitadas para se abrir a bandeja do CD-ROM ou instalar um novo software. Ora, onde está a vantagem se, no Windows, eu faço isso com apenas um clique? Que o Linux é um sistema robusto e confiável não se discute, mas, desculpem-me os "linuxistas", é preciso encontrar argumentos mais convincentes. Em uma era onde a tendência é deixar as coisas cada vez mais simples, por que eu deveria escrever uma verdadeira carta ao meu próprio computador apenas para apagar um arquivo?

Não me entendam mal. Acho válido todo o tipo de aprendizado, apenas questiono a utilização de certas coisas que se aprende. Por exemplo, enraizado na minha memória está o Teorema de Pitágoras (o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos), o qual eu jamais utilizei em toda a vida e duvido que venha a utilizar. Aliás, já esqueci o que vem a ser uma hipotenusa.

Enfim, estou sendo apenas rabugento. Recentemente soube que as matérias de filosofia e sociologia serão integradas nas escolas estaduais e ainda não me decidi se gosto ou não da idéia. Por um lado, parece válido; por outro, isso me cheira a doutrinação disfarçada. Aprender nunca é demais, entretanto, o uso que se faz com o que se aprendeu é que diferencia um homem do outro. A meu ver, matérias como português, matemática e história precisariam de um reforço de 200% antes de pensarem em aparecer com novidades. Se um aluno sequer sabe a diferença de "mas" e "mais", como conseguirá entender Nietzsche?

Às vezes é preciso simplificar certas coisas para que possamos nos dedicar em outras mais complexas. Se duas moedas podem fazê-lo chegar do outro lado do rio, por que gastar dois anos aprendendo a andar sobre a água?

Publicado em 17/07/2006 no blog Hot Rod's Café