É TUDO CULPA DAS ELITES

[Elite]
do Fr. élite, s. m.
s. f.,
..........o que há de melhor numa sociedade ou num grupo;
..........o escol, núcleo.
- Você viu o jogo da Seleção ontem? - perguntou-me a faxineira da agência onde trabalho, na segunda-feira após o jogo Brasil x Austrália.
- Vi - respondi - porque era hora do almoço e minha família toda estava assistindo. Mas eu não ligo para futebol, não estava nem aí para o resultado (na verdade menti, pois torcia pela Austrália).
- Ai, que sufoco! - continuou ela, não reparando no meu desejo de encerrar o assunto por ali. - Meu cunhado fez um churrasco e a gente foi tudo (sic) lá na casa dele assistir. Fiquei com o coração na mão, sabe? Tive até que tomar meus remédios antes de começar a partida. Tenho pressão alta, aí já viu, né?
- Ahã - resmunguei, enquanto ela passava o pano no meu teclado freneticamente, sorrindo.
- Puxa - continuou ela - e aqui na empresa não deram nem uma camiseta pra gente torcer, né? Mas, também, depois que a Copa acabar, o que eu ia fazer com aquilo?
Realmente, nunca me passou pela cabeça o que fazer com uma camiseta da Seleção Brasileira após o término da Copa do Mundo. Usá-la, talvez? Não, porque se a taça não vier para o Brasil, as cores da bandeira causarão ódio e repulsa aos brasileiros; mas se vencermos, essas serão as cores mais lindas do mundo - e, segundo ouvi dizer, todos os nossos problemas serão resolvidos instantaneamente. O sucesso sócio-econômico do país está intimamente atrelado a uma bola balançado na rede. É tão óbvio, como não percebi isso antes?
Essa mesma faxineira confessava-me, meses atrás, que tentava obter uma aposentadoria por invalidez para o marido, o qual sofrera um derrame e encontra-se em estado vegetativo. Ela estava correndo atrás da papelada necessária e dizia-me que, conseguindo uma aposentadoria de R$ 600,00 para ele, pararia de trabalhar na hora. Ora, que se consiga a aposentadoria para um conforto financeiro e auxílio no tratamento do marido é compreensível. Porém, utilizar esse dinheiro como única fonte de renda em sua atual situação beira o inacreditável. Mas tudo isso é esquecido em dia de jogo do Brasil, claro.
Entretanto, depois do apito final, depois que a euforia das torcidas silenciar-se lentamente, depois que as tremulantes bandeiras forem enroladas e guardadas para daqui quatro anos (isso se não acabarem no lixo), os quadriênios patriotas voltarão a encarar a realidade de suas vidas: filas intermináveis nos bancos, metrôs superlotados, trânsito caótico, hospitais públicos sem atendimento, hospitais particulares inacessíveis, impunidade para criminosos, salários diminutos e pouca ou nenhuma expectativa de melhora. E chocando-se com tais fatos, os felizes torcedores perguntar-se-ão de quem é a culpa por eles estarem nessa situação? Como é possível, indagarão, que ontem mesmo comemoravam a vitória no futebol e hoje precisam lidar com tantos problemas? Precisam encontrar alguém para culpar, pois é inadmissível que os alegres habitantes do país do futebol devam sofrer dessa maneira. Então surge o nêmesis responsável por ceifar a felicidade da população: as "elites". É tudo culpa das elites!
A história é velha, mas ganhou força e alojou-se no subconsciente coletivo dos brasileiros. Quantas vezes não ouvimos alguém dizer que a culpa pelo caos, desigualdade e miséria do nosso país é das elites? Ah, inimigo nefasto esse. Aliás, por que ameaçar as crianças com o "Homem do Saco" para não ficarem até tarde na rua ou com a "Mula Sem Cabeça" se não quiserem comer brócolis, quando podemos unir o que há de pior e mais ameaçador em uma única entidade sobrenatural: as elites.
Só aqui, em um país onde comércio, empresas e repartições públicas param suas atividades por causa de um simples jogo de futebol é que se inventa um culpado para a própria incapacidade. Só aqui a palavra "elite" assume significado pejorativo, unindo conceitos de luta de classes de Marx e Gramsci e criando uma amálgama que gera desprezo à simples pronúncia deste nome. Se você estuda e se esforça para adquirir conhecimento e melhorar seu padrão de vida, cuidado! Está querendo ingressar em um universo proibido, pare enquanto é tempo e limite-se à mediocridade. Onde já se viu querer progredir quando todo mundo está nivelado por baixo?
As pessoas cursam faculdades sem nem saber por que o fazem. Estudam para passar de ano e pegar o diploma, não para aprender um ofício. O saudoso jornalista Paulo Francis disse, em novembro de 1990, que "a função de universidades é criar elites, e não dar diplomas a pés-rapados". A citação de Francis continua atual como nunca. A consciência de querer pertencer à elite é que nos deveria servir de estímulo. Do contrário, vamos nos conformando com nossas próprias limitações, acreditando ser impossível melhorar. Assim, limitados a bloqueios auto-impostos, olhamos os outros progredirem e lhes atribuímos características como "sorte", "pais ricos", "teve mais oportunidades", etc. Apenas duas simples palavrinhas não passam pela nossa mente quando julgamos os outros: mérito e esforço.
Seguindo a descrição que inicia este texto, elite representa aquilo que há de melhor em uma sociedade ou grupo, e não o contrário. Se existe algo que o Brasil precisa, é justamente o crescimento das elites. Deveríamos "elitizar" o país inteiro. Precisamos nos orgulhar de (bons) músicos, pensadores e escritores (e poder discuti-los à altura), não de um time de futebol. Porém, com o exemplo que temos hoje daquele que senta na cadeira da presidência da república e enaltece a falta de estudos e glorifica a ignorância, não podemos esperar nada diferente. E vendo os resultados das atuais pesquisas eleitorais, fica claro que, quanto maior a idiotice cometida, mais o idiota orgulha-se de si mesmo.
O homem reflete o ambiente em que vive, por isso, para evoluir, ele deve estar consciente de que seu padrão atual não lhe serve mais e precisa buscar algo melhor. Se gritar em frente à TV durante os jogos da Seleção não é o que você tem em mente como qualidade de vida, se passar horas em botecos de esquina com pessoas que não lhe acrescentam nada já não parece tão prazeroso, é uma boa idéia considerar uma reestruturação completa da sua vida. O que fazem aqueles que são "melhores" do que você? Quais são os hábitos deles? O que eles lêem? Como eles falam? O que vestem? Onde costumam ir? De que forma se divertem?
Busque a elite, não a despreze. Faça amizades com pessoas que possam lhe ensinar algo, deixe velhos hábitos para trás. Evolua, mude, melhore! Não é tão difícil quanto parece. E uma vez saindo desse estado de letargia, você perceberá que a evolução é constante e dinâmica - o que aprendeu hoje lhe servirá para aprender mais amanhã. Elitizar-se não é saber que não se usa meias brancas com terno ou que o cinto deve combinar com os sapatos, ou ainda que o garfo vai na mão esquerda e a faca na direita. Elitizar-se não é apenas conhecer regras da etiqueta, mas entendê-las como uma forma de diferenciação, sem que lhe pareçam bobagem ou coisa parecida. Pois é aí que reside o princípio da evolução e separação intelectual daquilo que você foi para o que você é e, claro, para o que ainda pode ser.
Logicamente, não tome adolescentes milionários que se drogam e destroem carros importados por "elite". Esses são nada menos do que pobres imbecis. A elite a qual me refiro tem pouca relação com a situação financeira da pessoa. Ela começa no intelecto, no desejo de aprender mais, de evoluir culturalmente. O resto é conseqüência. Mas, é claro, aprender mais significa ler mais. Ler coisas às quais não se está acostumado. Deixe de lado, por exemplo, o universo da ficção e fuja de porcarias como os "Códigos Da Vincis" da vida. Aventure-se em ambientes que até então não lhe chamaram atenção. Aprenda mais sobre política, informe-se a respeito das novas tendências da sua profissão. Como funciona o sistema eleitoral da Suíça? Existe miséria na Holanda? Há um universo novo lá fora, esperando para ser descoberto, e você ainda perde seu precioso tempo gritando "gooool"?
Termino por aqui citando outra frase de Paulo Francis, que deve servir de reflexão para todos nós: "Quem não lê, não pensa. E quem não pensa está fadado a ser sempre um servo."
Publicado em 21/06/2006 no blog Hot Rod's Café
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