PELA EXTINÇÃO DO 13º SALÁRIO

"O ser humano trabalha com um objetivo e por uma única razão. O objetivo é ganhar dinheiro. A única razão é que não há outra opção a não ser trabalhar". Essa frase é do famoso escritor e executivo Max Gehringer. Leia e releia quantas vezes quiser e perceberá que não há como fugir da máxima de Max: se quiser ganhar dinheiro, vai ter que trabalhar. E isso é ruim? Claro que não. O trabalho enaltece, forma caráter, exercita corpo e mente e, é claro, paga nossas contas.

Como paradoxo à frase de Gehringer, existe um ditado popular que diz que "quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro". Eu prefiro encarar isso como "quem se acomoda em um emprego desperdiça oportunidades de ganhar mais dinheiro". Hoje entendemos por trabalho a aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim, mas a origem da palavra trabalho remonta a outros significados menos agradáveis.

Todos nós queremos ganhar mais, mas nem todos colocamos em prática ações que levam a esse fim. Isso se deve a muitos fatores, mas, em essencial, a causa é a acomodação, o conformismo e a falta de propósitos na vida. Trabalhar para ganhar mais dinheiro dá muito trabalho, então, é preferível contentar-se com o que se tem e ficar reclamando. E nós, brasileiros, devemos ser os campeões mundiais nessa modalidade. Jogamos a culpa em tudo: no governo, na falta de oportunidades, nos tempos difíceis, na crise, menos em nós mesmos. Somos sempre os injustiçados que esperam algum governante benevolente reverter essa situação, ou seja, queremos que outros resolvam nossos problemas. E isso jamais acontecerá.

Esse foi um dos motivos pelo qual questionei o pagamento do 13º salário em meu artigo anterior (onde as reações foram bem diversificadas). É claro que os benefícios oferecidos pela CLT garantem uma segurança ao trabalhador. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma segurança (e não estou generalizando) gera um conformismo em relação a esse pseudo-benefício. Segundo pesquisas recentes, a maioria das pessoas usa o 13º para saldar dívidas (contraídas devido aos baixos salários, é claro). Não há uma insensatez nisso? Por que esperar ansiosamente pelo 13º para pagar dívidas em vez de procurar aumentar a renda dos 12 meses, deixando o 13º salário para o que ele deve ser: um extra e não parte fixa do orçamento.

A efeito de comparação, interessante é notar que, em países desenvolvidos e com uma economia liberal como os EUA, por exemplo, a população possui maior poder aquisitivo e não recebe 13º salário nem férias remuneradas - ou, pelo menos, não da mesma forma que nós. A maior parte dos benefícios pagos aos empregados por uma empresa vem do merecimento, não da obrigatoriedade. Este artigo que me foi enviado pelo colega Kosher-X, explica muito bem como funciona o sistema de remuneração norte-americano.

Muitos trabalhadores vêem na CLT uma garantia de estabilidade no emprego. Mas até isso é uma ilusão, pois, em um mercado de trabalho tão concorrido como o atual, a substituição de profissionais dá-se num piscar de olhos. Além do que, muitos empresários sacanas preferem pagar seus funcionários em acordos parcelados na justiça, 3 anos após a demissão, do que desembolsar uma alta quantia de imediato (mas, se você estiver precisando de dinheiro agora, aonde está a segurança da CLT?). Quando a pessoa começa a perceber que as garantias das leis trabalhistas, na prática, possuem efeito retardado, ela passa a procurar outras formas de aumentar seu rendimento e criar suas próprias garantias. E, então, descobrirá que o mundo lá fora oferece essa chance - não é fácil conquistá-la e mais difícil é mantê-la, mas aqueles que conseguem não têm do que reclamar.

Importante frisar que não sou contra as leis trabalhistas ou empregos de CLT. Para milhares de pessoas, essa fórmula funciona bem. Mas quando se pretende um ganho mensal que beire os cinco dígitos, é necessário repensar sua forma de remuneração. Todo mundo quer ganhar mais e pagar menos impostos (especialmente aqueles descontados na fonte). Um empregado contratado em regime de CLT custa, para o empregador, quase dois funcionários; por isso, muitas empresas começaram a alterar sua forma de contratação. As opções são várias como o contrato informal (que não possui validade nenhuma perante a lei, mas geralmente se faz vista grossa), o registro de autônomo, a abertura de uma microempresa (onde o funcionário emite nota fiscal como serviço terceirizado) ou até mesmo as cooperativas de trabalho. Reparem que da escola à faculdade somos ensinados a estudar para arrumar emprego, não para abrir uma empresa. O Brasil não possui a cultura do empreendedorismo e, geralmente, somos desencorajados da "loucura" de montar o próprio negócio para procurar a "estabilidade" de um bom emprego. É certo que nem todo mundo possui vocação para empresário, mas isso não é motivo para minar os sonhos daqueles que desejam uma alternativa ao trabalho convencional.

O consultor neozelandês Ian Brooks, em seu livro Ganhando Mais, além de fornecer dicas interessantes para que as empresas consigam aumentar seus lucros, dedica um capítulo aos funcionários. Brooks afirma que, se o funcionário pensasse como um empresário, enxergando o empregador como cliente e não como patrão, ele daria mais importância a seu desempenho e aumentaria seu comprometimento com a empresa. O mais comum é ver funcionários dizendo que só querem saber do salário no fim do mês e a empresa que se dane, mas o empresário está empenhado em fazer a firma crescer, mesmo que sejam necessários sacrifícios (horas de almoço perdidas, ser o último a ir embora, queimar neurônios com meios de melhorar o trabalho, etc.), pois ele sabe que se o cliente crescer, ele cresce junto.

Portanto, se me perguntarem se sou favorável ao fim do 13º salário, a resposta é sim. Sou favorável à extinção voluntária do 13º em prol da possibilidade de ganhos maiores (lembrem que Sílvio Santos, Abílio Diniz e Antônio Ermírio de Morais não recebem 13º nem férias remuneradas), mas não apoiaria, no momento, a extinção da lei que garante esse e outros benefícios. A possibilidade de ganhar mais existe, mas requer habilidade para administrar as próprias contas, coisa que nem todo mundo é capaz de fazer. Se o "imprescindível" para você é torrar seu dinheiro em uma nova placa de vídeo para o computador ou no novo tênis da Nike, então é bom redefinir seus propósitos ou estará contando com o 13º para cobrir o buraco no banco e reclamando que ganha pouco.

Publicado em 19/04/2006 no blog Hot Rod's Café