19ª BIENAL DO LIVRO: ENTRE O CÉU E O INFERNO
Não tenho saído muito ultimamente. Já se somam alguns meses que não sei o que é uma sala de cinema ou teatro e nem um passeio ao Hopi Hari. Minhas incursões ao universo gastronômico de São Paulo sofreram drástica redução, resumindo-se agora a pequenas escapulidas para degustar, aqui e ali, algumas pizzas ou esfihas - que não sejam muito caras, de preferência. Tudo isso em nome do casamento! Um pequeno e temporário sacrifício para que eu possa realizar meu enlace matrimonial. Entretanto, vez ou outra me dou ao direito de gastar um pouco mais apenas para sair da rotina. Assim, no último sábado resolvi abrir mão das culinárias árabe e italiana para buscar um pouco mais de cultura. Fui visitar a 19ª Bienal do Livro.
A mídia fez seu papel de divulgação e chamou a atenção do público para os destaques da Bienal deste ano como os "menores livros do mundo", com reproduções miniaturizadas de diversas obras da literatura; livros sobre futebol (aproveitando o ano da Copa) e muitas publicações didáticas, voltadas para educadores. A princípio, o evento pareceu bastante atrativo. Assim, sábado (11/03) à tarde peguei minha noiva e fomos lá, "respirar cultura".
Chegamos por volta das 15h ao Anhembi, caminhamos um pouco e nos deparamos com uma fila assustadoramente enorme (veja a foto). A princípio, achamos que ela era apenas grande, mas, olhando com atenção, vimos que a fila sumia das vistas e dava a volta na praça e no chafariz do Anhembi - destaque para o obelisco de pedra, erigido sobre o gramado, em homenagem aos estudantes chineses que morreram na Praça Tien An Men em defesa da "democracia e do socialismo" (foto aqui). A fila era forçada a passar bem em frente ao obelisco, que traz uma incongruência na frase, pois socialismo e democracia jamais podem existir juntos. Apesar da fila enorme, estávamos de bom humor - o mesmo não posso dizer de dois sujeitos atrás de nós, que reclamavam do sol, do vento, da fila, das curvas que a fila fazia, etc. Mesmo assim, em menos de meia-hora entramos no pavilhão.
Quem viu uma exposição viu todas. E eu estive em várias - visitando ou trabalhando. Estandes coloridos, corredores agitados, barulho e muita gente. O que muda, realmente, é o conteúdo dos expositores, pois, de resto, é sempre a mesma coisa. Enfim, começamos a perambular pelas laterais e evitávamos, a princípio, os estandes mais famosos, que estavam lotados.
Caminhávamos despreocupados enquanto minha noiva procurava os tais "menores livros do mundo". Finalmente encontramos o lugar, que deveria ser o "menor estande do mundo", também. Era minúsculo e estava simplesmente entupido de interessados nos tais livretos (foto). Fiquei observando de longe, enquanto minha noiva se acotovelava para perguntar o preço: 12 reais! Nesse momento, alguém ergue um desses livrinhos, onde se lia "Bíblia Sagrada", e pergunta à vendedora "a Bíblia está toda aqui?", e ela responde "somente as partes importantes". Quais os critérios que eles usaram para saber o que é ou não importante na Bíblia permanece um mistério para mim.
Alguns metros adiante, vislumbrei aquilo que animaria o meu dia: dezenas de camisetas, livros e souvenires temáticos sobre Che Guevara. O que leva as pessoas a cultuarem um assassino terrorista está além da minha compreensão, mas a cena que saltava aos olhos era notar que o estande dedicado a Che, declaradamente comunista, beneficiava-se de práticas comercias notoriamente capitalistas como descontos, parcelamento e - a melhor parte - aceitavam Visa! É claro que registrei o momento para a posteridade bem aqui. Pois é, o capitalismo nunca deu tanto lucro para os comunistas.
Mas a propaganda socialista não parava por aí. Quase colado ao estande de Che, uma obscura editora se orgulhava de apresentar ao público a biografia de Evo Morales, presidente da Bolívia e famoso "cocalero" (foto). Isso sim é o que eu chamo de apologia às drogas (refiro-me ao livro e não apenas ao fato de Morales trabalhar com coca e ser amigo de Hugo Chavez). E a coisa ia piorando, com ensaios, biografias, teses, interpretações e teorias dos grandes "pensadores" comunistas, como podem ver aqui. É claro, o fato das ideologias saídas dessas mentes brilhantes terem causado a morte de mais de 100 milhões de pessoas (a efeito de comparação, o nazismo matou 20 milhões) era simplesmente ignorado.
Na outra metade da feira, o cenário mudava de figura. Era visível a inundação de livros religiosos e de auto-ajuda que borbulhavam por centenas de estandes. Você passava por uma prateleira de livros jurídicos para, logo a seguir, ver a bibliografia completa de Chico Xavier. Folheava algumas publicações de economia e deparava-se com as obras de Zíbia Gasparetto. Mais alguns passos e podia comprar as mensagens de felicidade do Dalai-Lama, que convidavam o leitor a uma vida melhor, enquanto as capas dos livros de Roberto Shinyashiki confirmavam que essa vida melhor era possível, desde que se mantenha estampado no rosto o sorriso da Hebe Camargo (gracinha!).
Mas o que realmente pululava entre a editoras eram os livros que pegavam carona no infame O Código Da Vinci. Os títulos não poderiam ser mais originais: Desvendando o Código Da Vinci, Desmistificando o Código..., Entendendo o Código..., etc. Seguindo essa mesma onda, alguns autores tentavam esconder-se sob camuflagens pseudo-históricas e criando pérolas como Jesus, um personagem intrigante, Jesus, o maior psicólogo que já existiu, A verdadeira história de Jesus, O Jesus histórico e mais um monte de coisas semelhantes. É provável, se eu me dispusesse a procurar, que encontrasse algum escritor que tenha publicado uma entrevista cara a cara com Jesus. Vale tudo para chamar a atenção.
Interessante notar que a Bienal estava nitidamente dividida entre comunismo e religiosidade. Considerem a seguir três frases de Vladmir Ilitch Uliánov, mundialmente conhecido como Lênin, idolatrado líder comunista: "Deus é o inimigo pessoal da sociedade comunista", "O homem que se ocupa em louvar a Deus se suja na sua própria saliva" e "É preciso combater a religião, eis o ABC do comunismo". Diante das evidências, os visitantes da Bienal estavam, literalmente, entre céu e inferno!
Saldo final: 1) fiquei com dor nas pernas depois de andar por mais de 4 horas no evento; 2) meu estômago protestou veementemente por causa de um sanduíche de salame e provolone que comi; 3) não comprei absolutamente livro nenhum porque os preços estavam iguais ou maiores do que nas livrarias comuns; 4) somando os gastos com entrada, estacionamento e lanches, eu teria economizado muito mais se fosse comer esfihas ou pizzas, além de, provavelmente, ter adquirido mais cultura do que na Bienal.