DEBATA, SE NÃO DER, BATA
Nunca discuta com um idiota, as pessoas que observam podem não distinguir quem é quem. Li essa frase certa vez em algum lugar e ela jamais me saiu da cabeça. A princípio, porque é engraçada, mas, especialmente, porque é a pura verdade.
Debater com idiotas exige muito mais do que se imagina. Não é simplesmente uma questão de se dizer o que pensa e esperar que ele vá compreendê-lo, admitir os erros e levantar alguma questão que lhe tenha vindo à mente. Não, os idiotas geralmente não levantam questões, eles enterram as respostas. E enterram bem fundo.
Em tese, nós só podemos debater sobre assuntos que conhecemos - não exatamente que dominamos, mas que conhecemos em certos níveis para que um diálogo racional seja possível. Desenrolar opiniões pessoais a respeito deste ou daquele assunto é fácil e muito tentador, o famoso "eu acho" sai espontaneamente e, quando menos se espera, lá está você dizendo qual é a melhor escalação para a Seleção Brasileira na Copa, sem sequer conhecer as regras do futebol; qual o melhor hotel para se hospedar em Maceió, sem jamais ter viajado a lugar algum; quais as cores de roupa que estão na moda, sem sequer olhar as vitrines de um shopping ou, ainda, quais os pratos mais saborosos dos melhores restaurantes da cidade baseando-se apenas nas pizzas que você pede aos sábados.
Cercar-se de "achismos" é perigoso porque a pessoa acaba assumindo para si o manto da verdade incontestável e, daí para a arrogância, basta meio passo. Eu mesmo já caí nessa cilada. Existem assuntos que conheço bem, outros sobre os quais tenho uma leve opinião formada e uns terceiros cujas opções não me são outras a não ser "achar". E justamente nos assuntos que eu "achava" alguma coisa é que me punha a debater como profundo conhecedor. Mas, como o ser humano só aprende errando, depois de levar vários "tabefes", tive que reaprender minhas maneiras de argumentação e, principalmente, informar-me um pouco mais antes de querer discutir qualquer coisa. Ainda não estou livre de escorregões, mas já não passo tanta vergonha.
Mas falava dos idiotas. Recentemente participei de um debate político em um site de notícias. O propósito do debate perdeu-se nos três primeiros comentários, que já desvirtuavam a notícia original - creio que se tratava de futebol, mas isso não vem ao caso. O que acontece é que, no meio daquele qüiproquó econômico/político, os participantes dividiam-se entre os que apoiavam o governo Lula e os que criticavam. Chavões, frases feitas, lugares-comuns, tinha de tudo ali. Para jogar mais lenha na fogueira, resolvi participar da brincadeira e coloquei minhas impressões sobre o atual governo e seu desempenho. Desnecessário dizer o quanto fui atacado pelos defensores de Lula, que me chamavam de todos os adjetivos pejorativos possíveis.
Para não descer ao nível dos meus agressores, procurei informar-me na área da economia como o país tinha se saído em 2005, visto que a "boa" economia parece ser o único argumento dos petistas. Deparei-me com as notícias de que os bancos Itaú e Bradesco (bancos privados) tiveram um lucro recorde no ano passado, somando R$ 5 bilhões cada um - o que me fez lembrar das críticas a FHC, chamado de "presidente dos banqueiros", lembram? E qual não foi minha surpresa ao descobrir que o Banco Central (banco estatal) sofreu um prejuízo de R$ 10 bilhões! Imbuído de boa vontade e armado com fatos, voltei ao debate e mencionei esses números, dizendo que os bancos privados tiveram lucro enquanto o banco estatal, que usa o dinheiro do governo (nosso dinheiro) arcou com um prejuízo que soma o lucro do Itaú e do Bradesco juntos.
A princípio, os adversários argumentaram que, diferente de FHC (sic), Lula não ajudou a salvar nenhum banco. Ora, isso é verdade, mas, essa situação se aplicaria se o prejuízo fosse do Itaú ou do Bradesco, que são bancos privados e o governo não tem mesmo a obrigação de ajudar. Mas o prejuízo foi do Banco Central, ou seja, esse rombo de R$ 10 bilhões ocorreu no bolso do governo e não é uma questão de ajudar ou deixar de ajudar, mas de impedir que isso acontecesse. Ao perceberem a gafe de seus comentários, retrucaram que eu esqueci propositalmente de mencionar o lucro de R$ 2 bilhões da Caixa Econômica Federal. De fato, acabei esquecendo, mas retruquei dizendo que o lucro de R$ 2 bilhões, com o prejuízo de R$ 10 bilhões, ainda nos mantinha no vermelho em R$ 8 bilhões.
Então, sabe-se lá de onde tiraram isso, disseram que eu estava mal informado porque o Banco Central havia registrado um lucro de R$ 4,2 bilhões. Para não passar por mentiroso, mostrei-lhes este link aqui. Diante das evidências e sem poderem contra-argumentar, meus adversários me "acusaram" de ser "leitor" da Folha e também da Veja e que isso, por si só, já desqualificava minha fonte de informação - ou seja, a minha prova cabal de nada serviu para eles.
Chega a ser impressionante a forma como certas pessoas jamais admitem que estão erradas. Usam todos os argumentos possíveis e, quando estes lhes faltam, partem para agressões e acusações ridículas e sem cabimento. Jamais imaginei que seria xingado de "leitor da Folha". Se tirei algo de proveitoso desse debate, com certeza foi a descoberta de que minha paciência é maior do que imaginava, mas não é infinita. E, principalmente, percebi que gastei preciosos minutos da minha vida debatendo com idiotas a troco de nada - ou seja, o maior idiota da história fui eu mesmo. Não há nada de gratificante em debater com idiotas, você acaba se rebaixando e não aprende absolutamente nada. Eu poderia ter feito algo muito mais útil como, por exemplo, dormir.
Talvez, no futuro, eu arrisque participar de um fórum mais inteligente. Estou pensando em começar por aqui, onde os adversários parecem muito mais preparados do que os outros com quem debati.