I'LL BE THERE FOR YOU

"Essa juventude está perdida". Certamente nossos pais cansaram de dizer isso, assim como os pais deles e os pais dos pais deles. É um círculo que se fecha: a sua juventude sempre será a melhor de todas as épocas e, depois de adulto, olhará com curiosidade para a garotada, desejando que eles fossem mais parecidos com você. Não há nada de errado nisso, apenas significa que evoluímos com o tempo, o que não quer dizer que a juventude passada realmente tenha sido melhor do que a atual.

Após essa explicação, permitam-me um desabafo: Essa juventude está perdida! Sim, contrariando a teoria no parágrafo acima, afirmo que a minha juventude foi muito melhor do que essa que aí está. E (feliz ou infelizmente) posso provar! Outro dia o pessoal do serviço resolveu ir almoçar no McDonald's e, obviamente, não pude recusar tal apetitoso convite. Assim, naquele horário em que os estômagos criam vida própria, fomos lá consumir calorias.

O McDonald's estava lotado. Dúzias de adolescentes saídos de sabe Deus onde entupiam a loja e formavam filas enormes. Em meio ao tumulto, pegamos nossas bandejas e fomos procurar algum lugar sossegado para comer. Entre uma mordida e outra, comecei a prestar atenção no ruído da fauna que nos cercava. Risadas, gritos e palavreados duvidosos vinham de todos os lados. Observando o comportamento da molecada, fiz uma comparação com a minha própria adolescência, mas, apesar de tentar, não vi semelhança alguma e pensei: "Eu nunca fui assim".

O comportamento imbecil é inerente à adolescência, mas o que eu presenciava ali ia muito além. A vontade se chamar atenção, de aparecer mais do que os outros e de tumultuar fazia com que inventassem alguma brincadeira idiota e abrindo caminho para mais idiotices. Não ouvi um único comentário útil. Nada. Nem mesmo uma fútil conversa sobre o tempo - e uma conversa sobre o tempo, àquela altura, seria um debate científico, dado o nível os diálogos.

Em meio à balbúrdia ali estabelecida, um garoto arriscou exibir seus dotes artísticos. Com uma voz muito fina, cantou um pequeno trecho de uma ópera (se é que se pode chamar assim). Imediatamente, seu colega, querendo mostrar grande erudição, disparou a frase: "Puxa, ele está imitando o Edson Celulari" - tentando, imagino, fazer referência ao cantor Edson Cordeiro. Foi então que eu percebi a diferença entre a minha adolescência e a deles: nós éramos mais inteligentes! Claro, tínhamos nossos momentos de "besteirol", mas mesmo isso era mais consistente, fundamentado em coisas que aprendêramos. Nosso humor era inteligente, menos visual e mais intelectual. Tanto é que lembro de ter discutido com uma professora de arte a respeito de qual pintor havia cortado a própria orelha (eu dizia que era Van Gogh e ela, Gauguin - no fim, eu estava certo). Fico imaginando se algum daqueles garotos saberia responder quem foi Vincent Van Gogh.

Depois daqueles momentos de "estupidificação", senti uma incontrolável necessidade de me desintoxicar, de estar em contato com seres inteligentes. Corri para a banca mais próxima e comecei a ler os jornais, mas ali também não encontrei muita inteligência. Enfim, o tempo passou e, conversando com um amigo, dias depois, falávamos sobre o stress cotidiano e do pouco tempo que temos para reunir o pessoal e bater papo, especialmente porque nos finais de semana a maioria já tem compromissos distintos. E de repente surgiu a idéia: se os finais de semana são impossíveis de nos reunirmos, por que não fazer isso durante a semana?

Diferente de um happy hour, em que as pessoas se reúnem em barulhentos e entupidos bares depois do expediente, a nossa idéia era fazer o oposto: encontrar um lugar mais sossegado, onde não precisássemos gritar apenas para conversar com a pessoa sentada ao lado. Se a intenção era fugir do stress e valorizar um diálogo descontraído, os bares estavam descartados. Também não pretendíamos realizar esse encontro mais de uma vez por semana. Seria um único dia em que colocaríamos os afazeres e rotinas de lado para poder bater um papo entre amigos. E que lugar é mais calmo e vazio do que um shopping nas noites de terça? Assim, escolhemos como nosso ponto de encontro o quiosque da Ofner no shopping Anália Franco, às 19h30.

A idéia agradou em cheio a todos. Poder conversar calmamente, com tranqüilidade e bebendo café, pareceu, de repente, a melhor oferta que surgiu em anos. Acredito que, no fundo, todos sonhavam com esses momentos, mas não havia disponibilidade para realizá-los - até recentemente. E assim temos feito. Todas as terças, às 19h30, sabemos de nosso compromisso, sem a necessidade de combinar sempre - esperamos ansiosos por esse dia. Aos poucos, os amigos vão chegando, sentando e um clima agradável instala-se no ambiente. De velhos companheiros a amizades recém-firmadas, a conversa flui naturalmente. Uma conversa inteligente, divertida, sem pressa e que pula de um assunto para outro espontaneamente. Evitamos temas relacionados com nossos trabalhos, para que possamos nos desligar do cotidiano. Durante quase duas horas, o mundo inteiro se resume a uma mesa, xícaras de café e excelentes companhias.

Involuntariamente, não pude deixar de fazer a comparação com os garotos do McDonald's. Sim, as idades são diferentes e o nível intelectual também, mas, a diferença está em outra esfera. Enquanto nós temos histórias para contar - das mais tolas às mais complexas - eles se preocupam apenas em falar mais alto qualquer baboseira. Nós nos reunimos e damos atenção uns aos outros; eles se dispersam para atrair a atenção para si próprios. Nós estamos entre amigos; eles sequer sabem soletrar essa palavra. É triste imaginar que a maioria da juventude atual não dê valor a esses pequenos detalhes, preocupando-se apenas em ser a estrela sob os holofotes de seu palco individual. Um dia, talvez, eles reúnam os velhos conhecidos para tomar café, mas haverá um grande e incômodo silêncio quando tentarem se lembrar do que fizeram no passado.

Aos meus leitores fica o convite: se quiserem desfrutar de momentos agradáveis, com um bate-papo tranqüilo e despretensioso; se quiserem se divertir e esquecer os problemas do dia-a-dia; se não quiserem fazer absolutamente nada, mas procuram alguém para fazer isso com vocês, já sabem onde nos encontrar, todas as terças, às 19h30. Cheguem, puxem uma cadeira, peguem uma xícara e fiquem à vontade. We'll be there for you.

Publicado em 16/09/2005 no blog Hot Rod's Café