OS PRIMEIROS ACORDES
"A música do homem de espírito nobre, suave e delicado, conserva um estado d'alma uniforme, anima e comove. Um homem assim não abriga o sofrimento nem o luto no coração; os movimentos violentos e temerários lhes são estranhos. Se alguém deseja saber se um reino é bem ou mal governado, se a sua moral é boa ou má, examine-se a qualidade da sua música, que terá a resposta".
Confúcio (551- 479 a.C.)
O famoso filósofo chinês tinha uma grande estima pela arte vinda do período da Dinastia Chou e considerava a música como a chave da harmonia universal. Ele acreditava que toda expressão artística era símbolo da virtude e que deveria ser manifesta na sociedade. Para Confúcio (ou Kung Fu-Tzu), a música era um reflexo do homem superior e espelhava seu caráter verdadeiro.
Realmente não há como contradizer o sábio chinês. De todas as artes e suas formas de expressão, a música é a que toca mais fundo em nossos sentimentos. Difícil emocionar-se lendo um livro ou observando uma pintura da mesma forma como quando as notas musicais atingem nossos ouvidos. Confúcio ressaltava a importância não apenas da apreciação da boa música, mas o fato de tocá-la. Para ele, todos os homens deveriam ser versados em música, independente de outras artes que praticassem.
E ultimamente venho dando ainda mais razão ao sábio chinês. Há muito que eu tinha o desejo de aprender música e tocar algum instrumento - vivia na dúvida entre violino e sax. Sempre achei fascinante a capacidade de transformar os riscos e pontos de uma partitura em harmonia, ritmo e melodia. Para mim, entretanto, isso beirava o impossível. Ler e entender uma partitura era para quem já nascia com essa vocação, o que nunca foi o meu caso. Mas a vida dá suas reviravoltas e, quando menos esperamos, estamos fazendo algo que considerávamos impossível.
No meu caso, acabei decidindo finalmente aprender a tocar violino. O desejo, que vinha de longa data, sempre foi abafado por desculpas, preguiça e falta de tempo - esta última responsável pela maioria das não concretizações dos nossos sonhos. Mas há um momento certo para todas as coisas, isso é um fato. Foi necessário me afastar de algumas rotinas para poder refletir melhor sobre o que realmente era importante para mim. Então percebi o quanto eu queria aprender a tocar violino e, assim, parei de me auto-desculpar para correr atrás desse objetivo, em vez de esperar acontecer.
Logicamente, por não ter noção alguma de música, ainda estou engatinhando na teoria para aprender as notas, tempos e composições antes de sequer chegar perto de um violino - o que ainda deve levar uns bons meses. Mas mesmo assim percebo a mágica de estar envolvido nesse processo de aprendizado. Para quem não sabia absolutamente nada, distinguir um Dó de um Fá ou reconhecer uma Clave de Sol é um avanço fantástico. É como aprender um outro idioma, só que em vez de letras, usam-se notas musicais.
Mas devo confessar que a parte mais divertida dessa minha nova empreitada é a possibilidade de voltar a estudar. Sim, estou estudando música, mas há muito, muito tempo eu não tinha essa obrigação. O fato de pegar um livrinho e ficar lendo, decorando, porque alguém vai me avaliar na próxima aula é sensacional. Eu tinha esquecido como é bom estudar, aprender e mostrar o que se aprendeu. Além disso, acabei percebendo que a frase "não tenho tempo" é absolutamente falsa. Meus dias são completamente corridos, ando ocupado até nos finais de semana e sempre disse a mim mesmo que só aprenderia música quando tivesse tempo. Pois bem, a situação se inverteu: Estou estudando música e fabricando meu próprio tempo, sem que isso afete as outras funções.
Percebi que a minha falta de tempo não passava de simples desculpa para adiar compromissos. Com todas as minhas atuais obrigações e responsabilidades, consegui separar algumas horas para estudar. Mais do que a possibilidade de aprender música, acabei descobrindo que basta levantarmos de nossa preguiça psicológica para começar a fazer as coisas acontecerem. A minha própria visão em relação a projetos futuros evoluiu bastante. Sinto como se um enorme peso tivesse saído dos meus ombros.
Deixo aqui um conselho para os leitores: Aprendam a tocar alguma coisa! Sim, estudem música e procurem tocar algum instrumento - violão, flauta, sax, trombone, o que seja. Apenas aprendam, sem a necessidade de seguir uma carreira profissional, mas para um enriquecimento pessoal incomparável. Não apenas ouça a música, mas faça parte dela. Perceba a beleza de estar envolvido com uma arte que traz à tona nossos sentimentos mais sublimes, além da capacidade de expressar-se sem palavras. Experimente e você vai concordar comigo: Confúcio estava certo.