BIZARRICES ONÍRICAS

"Você não vai acreditar", disse meu amigo Claudinei em uma conversa por MSN. E, honestamente, eu jamais acreditaria, mesmo, não tivesse passado por experiência semelhante há pouco tempo. Falávamos de sonhos. Sonhos esquisitos, para ser mais exato.

Eu estava concentrado no trabalho, certa manhã, quando ele me chamou e disse: "Meu, tive um sonho muito esquisito essa noite". Os sonhos geralmente são esquisitos, mas, quando incluímos esse adjetivo na frase como reforço, ainda mais acompanhado da quantitativa expressão "muito", pode-se esperar qualquer coisa - do bizarro ao hilário. E, nesse caso, houve um pouco dos dois.

É claro que, depois dessa abordagem, minha curiosidade falou mais alto. Não resisti e pedi para que ele contasse o sonho. O relato foi rápido, mas o conteúdo era, no mínimo, inusitado. Disse ele: "Sonhei que o Celso (outro amigo nosso), você e eu estávamos na sua casa, assistindo ao DVD da Super Máquina quando, de repente, o Godzilla apareceu e começou a destruir toda a vizinhança, inclusive sua casa". É difícil ficar indiferente depois de ouvir uma coisa dessas. Como se isso não bastasse, Claudinei ainda justificou que o Godzilla era a versão japonesa, de roupa emborrachada, e não o monstro em CG do filme americano - coisa que, a essa altura, já não fazia a mínima diferença. O máximo que pude fazer foi aconselhá-lo a afastar-se por um tempo da TV, dos videogames e de histórias em quadrinhos. Estou até agora tentando fazer a conexão do famoso KITT com um gigantesco e radioativo dinossauro japonês.

Aliás, há cerca de um mês tive um sonho quase nos mesmos moldes - o que me faz pensar em afastar-me também da TV, videogames e quadrinhos. Sonhei que andava na rua, a caminho de casa, em um dia ensolarado, quando resolvo olhar para cima e apreciar o céu azul. Nesse momento, vislumbro um claro e redondo objeto voando por entre as nuvens. Não demorou muito para eu perceber o que era: um OVNI! Sim, uma nave vinda de outro planeta descia pelos céus na minha direção. O fato da nave possuir a mesma forma de um observatório astronômico (com a abóbada superior e o telescópio saindo pela abertura) não me pareceu nem um pouco estranho - como se houvesse lógica nos sonhos. Pois bem, o "observatório voador" veio rodando e descendo até pousar do outro lado da rua. Ele não era maior do que um carro. Assustado, comecei a correr meio curvado, esperando não ser visto. Mas fiquei curioso para ver como era a forma dos alienígenas e parei a certa distância, enquanto observava a nave se abrindo. E lá estavam eles, os ETs vindos de algum ponto distante da galáxia! Eles eram amarelo-esverdeados e pareciam com os desenhos que uma criança faz de um cachorro: disformes e com as quatro "patas" visíveis ao mesmo tempo - não havia perspectiva ou volume, eles pareciam finas folhas de papel recortadas, e tinham o tamanho de um cachorro pequeno.

Continuei ali, agachado, imaginando o que aconteceria. Então percebi a malévola intenção dos invasores. Eles escondiam-se dentro de esferas amarelas com o desenho do "smile". De uma hora para outra, a rua ficou repleta dessas esferas espalhadas pelo chão. Quando as pessoas pegavam os "smiles", os cruéis extraterrestres saiam lá de dentro e voavam nos rostos das vítimas, no melhor estilo do filme Alien, dominando o corpo de seus hospedeiros. Apavorado, corri para casa, pensando em avisar minha família. E é aí que os sonhos nos poupam um belo tempo, pois, de uma hora para outra, eu já estava na minha casa (apesar de ela não se parecer em nada com minha residência real) e, ofegante, procurei meu irmão para contar a história. Entretanto, a casa estava cheia de gente e me falaram que um amigo tinha levado a cadela dele lá para dar cria. Foi então que eu percebi o animal parado no meio da cozinha. Aquilo parecia com qualquer coisa, menos um cachorro. Era enorme, do tamanho de um porco, e quase não possuía pêlos. E - agora vem a melhor parte - os filhotes não estavam saindo pelo "orifício convencional". Não, em vez disso havia uma espécie de "tampa" nas costas do animal. As pessoas simplesmente abriam essa tampa e enfiavam a mão lá dentro, puxando os filhotes. Fiquei ali, observando aquela cena, então lembro de ter mudado de cômodo na casa e, enfim, acordei. Ainda na cama, comecei a rir e me sentir um completo idiota. De todos os sonhos cretinos que já tive, esse ganhava disparado.

Mas talvez não seja pior do que o sonho do meu irmão. Quando fui contar meu sonho bizarro para o meu irmão, ele me interrompeu e disse: "Não, o meu é pior". Não lembro exatamente de todos os detalhes, mas, em seu sonho, ele estava trabalhando no prédio onde fica seu escritório e, de repente, o interfone toca e alguém avisa que a Rainha da Inglaterra estava lá embaixo, esperando para falar com ele. Meu irmão ainda pensou: "Puxa, mas o que eu vou falar para a Rainha da Inglaterra"? Enfim, ele se arrumou, desceu as escadas e viu que a Rainha da Inglaterra estava com o carro estacionado sobre a calçada, repleto de bugigangas para vender, no melhor estilo "camelô da Santa Ifigênia".

Não lembro se houve mais alguma coisa, mas devo admitir que a Rainha da Inglaterra vendendo produtos paraguaios supera de longe uma invasão alienígena ou o Godzilla destruindo meu bairro. Honestamente não sei o que leva uma pessoa a ter sonhos desse tipo, mas a sensação de que fizemos papel de imbecil, ao acordar, perdura por vários dias. O "Reino de Morfeu" é realmente um lugar estranho, povoado por criaturas mais estranhas ainda. Se ao menos pudéssemos aprender com os sonhos, mas, que tipo de lição é possível tirar desses três relatos? Que um monstro pode destruir nossa casa a qualquer momento, que devemos estar atentos com os visitantes espaciais disfarçados de "smiles" ou que a mais nobre das figuras inglesas tem uma preferência secreta em vender extensões de tomada e potes de plástico?

Seja como for, se alguém chegar para você e disser "você não vai acreditar", acredite! Pois, um dia, pode ser a sua vez de relatar algo semelhante.

Publicado em 02/08/2005 no blog Hot Rod's Café