SÍNDROME DE DOM QUIXOTE
Uma das melhores maneiras de se conquistar a confiança das massas é tornando-se um heróico combatente das injustiças e defensor das causas sociais. A receita é fácil e pode ser utilizada em qualquer situação. Se quiser experimentar, é só fazer o teste. Numa conversa com amigos, deixe escapar sua "indignação" sobre racismo, desigualdade, pobreza, etc. Pronto, você acaba de se tornar o membro mais culto e respeitado da turma. Ao se colocar do lado do "povo", contra a opressão das "elites", a pessoa aproxima-se de uma divindade.
Mas fica a pergunta: Quem em sã consciência se manifestaria favorável ao racismo e à pobreza? E o que seria essa tão odiada "elite" que surge como uma sombra negra devorando os campos verdejantes e ensolarados das pessoas trabalhadoras? A meu ver, criou-se no subconsciente coletivo um inimigo imaginário, tão horrível que a simples menção de seu nome causa ódio e repulsa. Afinal, se por "trabalhador" entende-se a pessoa que executa um trabalho ou possui uma profissão, não consigo distinguir um metalúrgico de um empresário - se cada um, em sua área de atuação, está trabalhando, quem seriam os não-trabalhadores da elite? Certa vez, perambulando por diversas páginas do Orkut, comecei a ler a descrição do perfil de uma moça. Lá, ela afirmava ter uma compulsão por compras em shoppings para, logo em seguida, completar a frase com a sentença "mas sou preocupada com as causas sociais". Ora, desde quando é crime fazer compras para que a pessoa precise se justificar?
Um outro inimigo imaginário é a homofobia. Domingo passado a cidade de São Paulo abriu espaço para mais uma sofrível Parada do Orgulho Gay. Permitam-me aqui outra pergunta: Orgulho de quê? Desde quando a pessoa precisa sentir orgulho de sua orientação sexual? Na inútil tentativa de impor isso goela abaixo de quem está indiferente a todo esse movimento, os homossexuais não percebem que eles próprios são os criadores de um racismo, tratando como aberrações os não-simpatizantes de seu movimento. Assim, inventou-se um inimigo para justificar uma enorme manifestação com dois milhões de frustrados. Frustrados, sim, pois, se convictos estivessem, não precisariam de "paradas gay" e auto-afirmação vinte e quatro horas por dia, colecionando depoimentos hipócritas e demagogos de artistas ou políticos que os apóiam - como se alguma figura pública (que precisa ser bem aceita na mídia) fosse fazer um discurso contrário à "causa". Como disse um amigo certa vez, os homossexuais vivem na espera do surgimento de um "messias gay", alguém que afirme de uma vez por todas que eles estão certos e o mundo está errado. Que continuem esperando, então.
E assim os mais espertos conseguem seu lugar ao sol nesse jogo de falsos discursos e movimentações sem finalidade alguma. Faz-se todo um estardalhaço, atraindo a atenção da mídia, mas nunca se resolve problema algum. As famosas ONGs têm seu destaque, angariam rios de dinheiro e os problemas por elas combatidos continuam lá - ou será que nunca existiram? Por que, por exemplo, os índios brasileiros precisam viver em ocas no meio de reservas protegidas pelo governo? Seria mais lógico dar a eles a opção de adaptarem-se ao modo de vida do "homem branco" ou continuar vivendo como aborígines. Tenho certeza que a maioria da reservas ficaria vazia de um dia para o outro. Por que manter nossos índios vivendo de forma primitiva, se o que importa é a livre expressão cultural e religiosa? O que os impede de ter um carro, um emprego e continuar a cultuar Tupã em confortáveis apartamentos? O índio só é índio quando usa tanga e anda com uma lança na mão? Mas, é claro, se lhes fosse dada a escolha, difícil seria justificar as obscenas quantias investidas pelo exterior nas ONGs de "proteção" aos índios.
Tal qual Dom Quixote, na obra de Miguel de Cervantes, nossos "heróis" enxergam tenebrosos dragões no lugar de moinhos de vento e passam a combatê-los com todas as suas forças, sob os aplausos de uma platéia que, compartilhando da mesma deficiência visual, jura enxergar os sáurios animais. Mas diferente de dragões, os moinhos de vento não revidam os ataques. Infelizmente.