ERA MELHOR TER FICADO NA CAMA
Não há como negar. Existem certos dias que seriam muito mais lucrativos se tivéssemos permanecido debaixo das cobertas, longe do contato com qualquer outro ser humano. Esses dias podem ocorrer de duas formas: com a nossa ajuda ou com a ajuda dos outros. O primeiro é quando você mesmo comete alguma idiotice que o transforma no último dos mortais. O segundo é quando alguém comete essa idiotice e você acaba envolvido de alguma forma no processo.
O convívio com outras pessoas nos obriga a conversar, formular idéias e - o mais assustador - emitir opiniões. Para qualquer opinião que você emita sobre qualquer assunto, sempre haverá alguém por perto que se encaixa nesse assunto, criando aquele interminável momento constrangedor, quando um buraco no chão nos parece extremamente acolhedor.
É engraçado como algumas poucas palavras (às vezes ditas na inocência) podem mudar o curso da história - ou causar um desgaste desnecessário tentando remendar o estrago. Lembro-me de, há alguns anos, estar caminhando pelas lojas de um shopping com minha namorada. Passeávamos de mãos dadas pelos corredores, olhando as vitrines. Em certo momento, paramos em frente a uma loja de moda feminina, na qual os manequins exibiam as últimas tendências. Passados alguns minutos, minha namorada aponta para uma blusa pink "reluzindo" no meio das outras e diz: "Olha que blusa linda!". E eu, desinteressado, apenas comentei: "É... o modelo é bonito, mas a cor é horrorosa!". Nesse instante, ela responde: "Mas eu estou usando uma blusa da mesma cor!". Só então eu percebi que ela também estava com uma blusa pink, idêntica à da vitrine. Buscando rapidamente alguma saída em minha mente, consegui formular uma frase e arrisquei: "Ah... mas é que em você fica bem!". Passei o resto da noite buscando uma reconciliação.
Hoje em dia aprendi a gostar do pink. Mas quando estou dentro de alguma loja, com minha namorada, sou terminantemente proibido de emitir qualquer comentário - mesmo que a roupa pareça um forro de sofá, procuro me conter e não expressar minhas opiniões. Mas não deixo de criticar o marrom, que acho uma cor péssima para roupas femininas. Infelizmente minhas críticas parecem não surtir efeito, visto que minha namorada tem uma (cada vez maior) coleção de roupas marrons.
Mais recentemente me vi envolvido em outro episódio com minha namorada. De uma hora para outra, ambas as portas do meu carro travaram suas fechaduras, sendo possível abri-las apenas por dentro. Assim, quando saio, costumo sempre deixar o carro em estacionamentos e com pelo menos uma porta destrancada, até que eu o leve para consertar. Mas certa noite saí com minha namorada e acabei deixando o carro na rua. Ela, sabendo do problema com a fechadura, insistiu para que eu parasse no estacionamento. Eu, querendo dominar a situação, acabei trancando as duas portas. Quando tentei abrir novamente, quase quebro a chave. Era noite, a rua estava escura e eu lá, em pé, ao lado do carro, pensando numa maneira de abrir as portas. Não é necessário relatar aqui o estado do humor da minha namorada. Por fim, achei uma solução: o porta-malas. Fui até à traseira do carro, coloquei a chave no porta-malas e ele abriu suavemente. Para os outros veículos que passavam na rua, a cena de um sujeito agachado, entrando no carro pelo porta-malas, deve ter sido interessante.
Se houvesse um campeonato de gafes, eu poderia não ganhar, mas estaria entre os primeiros colocados. São momentos como esses que nos fazem refletir se valeu a pena ter levantado da cama naquele dia. Mas, enfim, devemos sempre lembrar que Murphy existe e reina absoluto!