LIBERDADE VS. IGUALDADE
Tempos atrás conversava com meu irmão sobre os dois temas que servem de título para este artigo: Liberdade versus igualdade. Discutíamos sobre a total impossibilidade de haver essas duas situações distintas ao mesmo tempo em uma sociedade. Pode parecer estranho, mas não é.
As duas palavras evocam sentimentos nobres, de comprometimento social e luta contra as injustiças. Mas pense bem, a liberdade nos torna livres, enquanto a igualdade nos torna iguais. Sim, isso é óbvio, mas você já parou para refletir nas conseqüências? Como é possível termos liberdade se, ao mesmo tempo, devemos ser "iguais"? Como eu faço para exercer a minha liberdade de ser diferente em um regime de igualdade?
Não estou discutindo aqui o fato de todos sermos iguais perante a lei, mas coloco em questão a tal da "igualdade social", que nada mais é do que um nivelamento das massas. É humanamente impossível implantar um sistema de igualdade sem interferir diretamente na liberdade individual das pessoas - quando digo interferir, entenda-se "suprimir". Oferecer chances iguais é uma coisa, mas querer acabar com uma classe em favorecimento de outra é ridículo. Culpam-se os ricos pela existência de pobres e, então, surge a solução milagrosa: Acabemos com os ricos e sejamos todos igualmente pobres.
Levantando a bandeira do combate à desigualdade social, condenamos a nós mesmos a uma era de atraso e escravidão. Ninguém é igual a ninguém e não se pode esperar que todos tenham a mesma opinião sobre os mesmos assuntos. A implantação de um regime igualitário em uma sociedade livre acaba, invariavelmente, em controle e autoritarismo - haja vista os exemplos da extinta Alemanha Oriental, URSS, China, Cuba e, mais recentemente, a Venezuela, onde falar mal do presidente é crime e dá cadeia. Sim, lá todos são igualmente oprimidos.
E liberdade não significa fazer o que bem entende. A liberdade proporciona ao indivíduo a oportunidade de desenvolver-se e destacar-se, enquanto outro indivíduo pode fazer uso da mesma liberdade para permanecer no anonimato. Assim, qualquer forma sutil de modificar a liberdade em nome da igualdade transforma-se em controle e totalitarismo. Percebemos que caminhamos para esse fim quando a primeira coisa que nos tiram é a liberdade de expressão, sob os mais estapafúrdios pretextos.
O subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cipriano, publicou uma cartilha que reúne palavras, expressões e piadas consideradas pejorativas e discriminatórias, mas nega que a publicação tenha a intenção de qualquer tipo de controle. "O objetivo é chamar a atenção para que a sociedade possa pensar mais na linguagem", afirma Cipriano. Ora, se a intenção não é controlar a forma como nos expressamos, por que criar tal cartilha? Por que não melhorar a qualidade do ensino público e criar uma sociedade de pessoas que não sejam "proibidas" de usar termos pejorativos, mas que não os usem por questão de educação? E se amanhã alguém acordar com a idéia de que todas as religiões são nocivas, por exemplo?
Para que você não seja pego desprevenido em conversa com amigos, publico abaixo a lista com algumas das palavras contidas nessa cartilha "politicamente correta". Leiam, reflitam e me digam se isso é ou não é assustador:
A COISA FICOU PRETA: forte conotação racista contra os negros, pois associa o preto a uma situação ruim.
AIDÉTICO: termo discriminador, o correto é HIV positivo ou soropositivo, para quem não apresenta os sintomas, e pessoa com Aids ou doente de Aids, para quem apresenta os sintomas.
ANÃO: são vítimas de um preconceito peculiar: o de sempre serem considerados engraçados. Não há nada especialmente engraçado. O fato de ser anão não afeta a dignidade.
BAIANADA: atribui aos baianos inabilidade no trânsito. É um preconceito de caráter regional e racial, como os que imputam malandragem aos cariocas, esperteza aos mineiros, falta de inteligência aos goianos e orientação homossexual aos gaúchos.
BAITOLA: utilizada para depreciar os homossexuais, assim como bicha e boiola. Sugeridos como corretos: gay e entendido (a).
BARBEIRO: xingamento para motorista inábil. Ofensiva ao profissional especializado em cortar cabelo e aparar a barba.
BEATA: deprecia mulheres que vão com muita frequência à missa.
CABEÇA-CHATA: termo insultuoso e racista dirigido aos nordestinos, cearenses em especial.
COMUNISTA: contra eles foram inventadas calúnias e insultos, para justificar campanhas de perseguição que resultaram em assassinatos em massa, de caráter genocida, como durante o regime nazista na Alemanha.
FARINHA DO MESMO SACO: junto com expressões como todo político é ladrão, todo jornalista é mentiroso, os muçulmanos são terroristas, ilustra a falsidade e leviandade das generalizações apressadas, base de todos os preconceitos. O fato de haver políticos corruptos, jornalistas imprecisos e muçulmanos extremistas não significa que a totalidade desses segmentos mereça aquelas respectivas acusações.
FUNCIONÁRIO PÚBLICO: depois de sistemáticas campanhas de desprestígio contra o serviço público, os trabalhadores dos órgãos e empresas públicas preferem ser chamados de servidores públicos, para enfatizar que servem ao público mais do que ao Estado.
GILETE: o termo adequado é bissexual.
HOMOSSEXUALISMO: é mais adequado usar homossexualidade. Homossexualismo tem carga pejorativa ligada à crença de que a orientação homossexual seria uma doença, uma ideologia ou movimento político.
LADRÃO: termo aplicado a indivíduos pobres. Os ricos são preferencialmente chamados de corruptos, o que demonstra que até xingamentos tem viés classista.
MULHER DA VIDA OU DE VIDA FÁCIL: eufemismos para caracterizar a profissional do sexo, prostituta.
MULHER NO VOLANTE, PERIGO CONSTANTE: frase preconceituosa contra as mulheres, a quem se atribui menos habilidade no trânsito em comparação com os homens, contrariando, aliás, os levantamentos estatísticos.
NEGRO: a maioria dos militantes do movimento negro prefere este termo a preto. Mas em certas situações as duas expressões podem ser ofensivas. Em outras, podem denotar carinho nos diminutivos neguinho ou minha preta.
PALHAÇO: o profissional que vive de fazer as pessoas rirem pode se ofender quando alguém chama de palhaço uma terceira pessoa a quem se atribui pouca seriedade.
PRETO DE ALMA BRANCA: um dos slogans mais terríveis da ideologia do branqueamento no país, que atribui valor máximo à raça branca e mínimo aos negros. Frase altamente racista e segregadora.
SAPATÃO: usada para discriminar lésbicas, mulheres homossexuais. Entendidas e lésbicas são termos mais adequados.
VEADO: uma das referências mais comuns e preconceituosas aos homossexuais masculinos. Expressões adequadas são gay, entendido(a) e homossexual.
XIITA: um dos ramos do Islamismo se tornou no Brasil termo pejorativo que caracteriza militantes políticos radicais e inflexíveis.