ELE FALA, NÓS ACREDITAMOS
Comecei a ler o livro 1984, de George Orwell, e pretendia terminá-lo (ainda estou na metade) antes de fazer qualquer comentário. Entretanto, acontecimentos recentes acabaram por me forçar a tocar no assunto, visto que notei semelhanças assustadoras entre realidade e ficção. Em sua obra, Orwell critica regimes totalitários criando um mundo onde o indivíduo perdeu toda sua privacidade e não existe mais a propriedade particular. Deve-se tomar cuidado com o que se fala, a maneira como se comporta e, principalmente, com seus pensamentos. Discordar do Estado não é uma opção, visto que a morte é o resultado de quem ousar pensar diferente. Há câmeras por todo o lado, vigiando a população incessantemente, sob o frívolo olhar do "Grande Irmão" (daí a expressão "Big Brother", do infame programa de TV), que tudo sabe e tudo vê.
Independente das críticas ao coletivismo, o que me chamou a atenção no livro foi o serviço realizado por certos "departamentos", os quais são incumbidos de alterar os fatos constantemente por meio da manipulação de notícias. Tudo com o objetivo de controlar as massas. Assim, tudo o que o "Grande Irmão" disser é tido como verdade incontestável. Por exemplo, se os impostos aumentarem 20%, as notícias dirão que os impostos caíram para 20%. E, se no passado ele afirmou que jamais chegariam a 20%, todos os registros históricos serão alterados para um novo discurso dizendo que ele previu os impostos a 20%. E ninguém ousa questionar, não por medo, mas porque já estão "idiotizados".
Nas últimas semanas temos presenciado algo muito parecido. Sou forçado a citar aqui novamente a nossa versão tupiniquim do "Grande Irmão": Lula (ou deveria dizer "Grande Companheiro"?). Essa inacreditável criatura conseguiu reunir, em um pequeno espaço de tempo, mais contradições e desinformações do que George Orwell poderia imaginar em seu livro. Primeiro, há algumas semanas, ao prestar homenagem comparecendo ao enterro do Papa, Lula aproveitou o tempo livre para fazer turismo em Roma e, visitando algumas igrejas, sentiu-se imbuído de um sopro divino ao afirmar, sem que lhe corassem as faces, ser "um homem sem pecados". E logo em seguida comparou-se a São Francisco de Assis, dizendo que, como ele, não possui "apegos materiais" - nossa mídia, é claro, omitiu que a renda mensal de um presidente da república gira em torno de R$ 30 mil (salário mais benefícios), como também esqueceu os US$ 140 milhões gastos com o novo e luxuoso avião (carinhosamente apelidado de "Air Force 51").
Pulando de Roma para a África, o turismo continua. Ainda beatificado por sua passagem pelo Vaticano, o humilde Lula comparou-se dessa vez ao próprio Papa quando pediu perdão aos líderes africanos pelo período de escravidão que tivemos no Brasil. Para arrancar lágrimas, ainda usou de soberba metáfora, dizendo que "escravidão é igual à dor de pedra no rim, só quem teve sabe como é". Novamente a mídia fez seu serviço e ignorou que os escravizados eram oriundos de tribos vencidas em batalha e vendidas aos brancos, que não precisavam se esforçar para conseguir escravos, já que estes lhes eram entregues por seus próprios conterrâneos - contrário fosse, não existiriam mais tribos africanas por lá. Escravizar os subjugados foi prática bastante comum ao longo da história, vide o domínio egípcio sobre os judeus. Assim, Lula se desculpou pela escravidão aos responsáveis pela mesma. Mas o que vimos por aqui foi apenas seu ato magnânimo.
De volta ao Brasil, já não mais sob tanta influência divina, o presidente fez um ácido discurso culpando a classe média brasileira pela alta taxa de juros cobrada pelos bancos. De acordo com suas palavras, a classe média "só reclama e não levanta o traseiro para trocar de banco". Diante da polêmica criada por tal afirmação, novamente a mídia foi rápida em esquecer os comentários de tempos atrás, quando se dizia que no Brasil não existe mais classe média, que somos um país de extremos, ou muito pobres ou muito ricos. Assim sendo, como pode uma classe inexistente ser responsável por alguma coisa? Crítico árduo dos juros de bancos privados, Lula não lembrou que os juros do Banco Central subiram pela oitava vez na semana passada e que, por meio da taxa Selic, o governo influencia a formação dos demais juros no país. Acovardando-se diante dos banqueiros, as declarações de Lula são nada mais do que encenações. Muito diferentes daqueles discursos inflamados em época pré-eleição.
Existem ainda outras contradições como a justificativa da criação do Fome Zero devido à fome que assola o país, enquanto pesquisas do IBGE mostravam que os brasileiros estão com o peso acima da média. E a criação de cotas para negros em faculdades, sendo que a porcentagem de negros em faculdades sequer foi influenciada por essa cota, ou seja, não existe (ou existe muito pouca) discriminação por parte das faculdades.
Estamos sujeitos aos devaneios do "Grande Companheiro". O que ele acredita ser verdade, passa a ser verdade no instante seguinte, mesmo que para isso tenha que se omitir a própria verdade. Lula acorda de manhã, olha-se no espelho, gosta do que vê e recomenda para todos. Nós ainda não temos câmeras instaladas em nossas casas, mas isso não será necessário, visto que a mídia faz seu trabalho com esmero, varrendo a sujeira para baixo do tapete e mostrando apenas o que lhe convém. Afinal, quem precisa conhecer a verdade quando temos um ser onisciente ocupando a cadeira da presidência?