O ÚLTIMO A SAIR APAGA A LUZ
Recentemente estive no II Congresso Infra, evento que reuniu grandes nomes da engenharia para discutir as últimas tendências e processos de facility management. Para quem não sabe, facility management é a terceirização de todos os serviços ligados à infra-estrutura de um local, seja uma indústria, um condomínio ou um hospital. Você tem pessoas 24 horas por dia preocupando-se com lâmpadas queimadas, limpeza de salas, manutenção de equipamentos, tráfego interno, otimização de serviços e tudo o que estiver relacionado a funções infra-estruturais, assumindo a responsabilidade de fazer as "coisas funcionarem" e liberando o cliente para que possa se dedicar às suas atividades principais (fabricar, vender, cuidar de pacientes, etc.).
Esse sistema tem crescido muito nos últimos anos, desdobrando-se em diversas ramificações. E uma delas está relacionada ao gerenciamento e consumo racional de energia. Como o facility management tem por objetivo reduzir custos para as empresas, o levantamento com gastos em energia também faz parte do processo, sugerindo formas de economia e oferecendo alternativas de geração de energia. E foi justamente esse um dos temas abordados durante o congresso: Energia. O palestrante, Rodrigo Aguiar Lopes, membro da ABESCO, não fez muitos rodeios e pintou um quadro bastante preocupante para o país nesse setor. Isso veio reforçar algo em que há muito venho dizendo de forma subjetiva nos meus textos: O governo precisa parar de meter o bedelho em assuntos que não lhe competem e deixar a iniciativa privada agir com mais liberdade.
De acordo com Rodrigo, o consumo de energia no Brasil vem crescendo em velocidade espantosa, enquanto a demanda permanece estagnada. Não é preciso muito para imaginar o que acontece quando você tenta extrair de uma tomada mais energia do que ela pode gerar. Para confirmar o fato, basta olharmos para os últimos meses, onde voltamos a temer o famigerado "apagão", que vem ocorrendo em diversas localidades do país. É preciso ser muito ingênuo para engolir a história de "erro humano" publicada nos jornais. Ver órgãos governamentais investigando a "causa" desses apagões é outra piada. A causa é óbvia, a solução é que não agrada o atual governo.
O Brasil não tem um problema insolúvel de energia. Pelo contrário, há interesse, vontade e capacidade para resolvê-lo - por parte da iniciativa privada, claro. A atual política de Lula nesse setor vem se mostrando catastrófica e deixa de mãos atadas aqueles que podem ajudar. Em 2001, quando começou a história do "apagão", o governo FHC tomou a medida mais racional: Começou a privatizar o setor, permitindo a entrada de várias empresas geradoras, que venderiam a energia sob diversas formas - uma padaria, por exemplo, que tem um consumo modesto, porém, maior do que uma residência, poderia comprar uma quantidade menor de energia, vinda de um fornecedor menor, enquanto grandes consumidores comprariam de grandes geradores. Isso criaria um impacto financeiro muito positivo, pois, desafogaria o governo e permitira às empresas privadas fornecerem serviços melhores e com valores diferenciados.
Porém, ao assumir a presidência, Lula disse que o programa de privatizações de FHC estava totalmente errado e, por isso, iria iniciar uma nova gestão. A iniciativa privada recuou nesse momento, cheia de incertezas sobre a nova administração, e manteve-se apenas como observadora. A idéia de Lula é manter a geração de energia centralizada no Estado, sob uma política patrimonialista, impedindo que empresas privadas busquem investidores externos para capitalizar recursos e construir usinas. O problema é que o governo não tem dinheiro para investir na geração de energia. E também não deixa ninguém mais investir, pois, não quer repassar os méritos para terceiros. É mais ou menos como a história do cachorro com o osso, que não come e não sai de cima.
Coincidentemente, segunda-feira passada (04/04) surgiu a notícia sobre uma possível escassez de energia em 2009, apenas para confirmar as previsões que ouvi durante o congresso, eliminando a hipótese de exagero. Longe de mim ser um "profeta do apocalipse", mas vocês hão de concordar que o cenário é, no mínimo, preocupante. Existem empresas trabalhando na busca de formas alternativas de energia - como a eólica - mas são tapa-buracos comparados à dimensão total do problema. Enquanto o governo não resolve o que fazer, a solução mais rápida tem sido os aumentos das tarifas. E podem esperar mais aumentos em espaços de tempo cada vez menores.
Claro, é necessária uma conscientização nacional sobre o assunto e um esforço individual para não desperdiçarmos energia. O uso racional traz um benefício a curto prazo de interesse geral: a redução na conta de luz. A longo prazo, estaremos empurrando o problema com a barriga até que alguém resolva pôr a mão na massa. Empresas para resolver o problema existem aos montes e de pronto cito dois grandes nomes: Siemens e Servtec. Basta a Lula a tal da "vontade política", tão mencionada por ele em sua campanha para a eleição como sendo o grande problema das administrações passadas. Resta saber se o presidenciável molusco lembra-se desses discursos.
Um outro tema abordado durante o congresso foi o problema da falta de água potável que atingirá o planeta nos próximos anos. Mas acho que vou parar por aqui. Um texto catastrófico por semana é mais do que suficiente.