A ARTE DE ENVELHECER Durante esse último feriado de 25 de janeiro pude assistir novamente a um filme que, sem dúvida, entrou para a lista dos meus favoritos. Trata-se da comédia romântica Alguém Tem Que Ceder, com Jack Nicholson e Diane Keaton. O filme explora o relacionamento de um playboy solteirão com garotas mais novas e suas conseqüências e complicações que surgem com a diferença de idade, além da redescoberta do amor durante a velhice. A princípio, o tema parece batido. E realmente é, não fosse a forma como a história é conduzida e, principalmente, as soberbas atuações de Nicholson e Keaton, que conseguem fazer rir até em momentos tristes - eles dão a impressão de que a interpretação de seus personagens está mais para diversão do que trabalho. A perfeita "química" existente entre os protagonistas é tão grande que chega a ofuscar os poucos coadjuvantes como Keanu Reeves, Amanda Peet e Frances McDormand, que parecem estar ali apenas como meros enfeites. Mas o grande atrativo do filme está na utilização de atores mais velhos que foram esquecidos pelos cineastas atuais, os quais buscam apenas belos rostos e corpos perfeitos para protagonizarem seus filmes. Não que jovens atores não tenham talento, mas a experiência faz toda a diferença na hora da comparação. A presença de Keano Reeves e Amanda Peet mostra que velhos e jovens podem coexistir perfeitamente. Aliás, a própria Amanda, em um comentário nos extras do DVD, disse que estava tremendo de nervosismo antes de filmar sua primeira cena com Jack Nicholson, enquanto este último esperava sentado e fumando calmamente, mostrando o domínio da situação. São momentos como esses a que me referi quando comparei talento e experiência. O filme ainda conta com uma fotografia belíssima tanto nos cenários quanto nas paisagens naturais. As cenas são sempre claras, limpas e possuem uma luz dourada agradável. E o final em Paris sempre dá aquele "algo mais" ao romance, não é mesmo? Você pode dizer que o filme não é tão bom assim, que é previsível e que o final é inverossímil. Em parte isso é verdade, porém, você se pega inconscientemente torcendo pela previsibilidade e desejando o final inverossímil, o que, consequentemente, acaba tornando o filme muito bom. O humor sutil presente nos diálogos inteligentes e nos detalhes das cenas não nos arrancam gargalhadas, mas nos deixam com um sorriso no rosto o tempo todo. É um humor mais refinado, como um bom vinho. É algo que eu pretendo usar como referência em meus projetos futuros - mas isso é assunto para uma outra ocasião. Esse filme, acima de tudo, retrata a forma como todos nós deveríamos envelhecer. Sem traumas, curtindo cada momento que a vida proporciona e, acima de tudo, rindo de nós mesmos. É exatamente assim que eu planejo terminar os meus dias: assumindo a idade sem que para isso tenha que viver desatualizado com o resto do mundo. Espero, um dia, poder lembrar de Jack Nicholson, parado em uma ponte sobre o Sena, em Paris, à noite, a neve caindo, ele olhando para a mulher amada e dizendo: "Tenho 63 anos de idade e, pela primeira vez na minha vida, estou apaixonado." Publicado em 26/01/2005 no blog Hot Rod's Café |