QUESTÃO DE EDUCAÇÃO

Deu em vários jornais da Internet, dias atrás, a seguinte notícia: "Um americano está vendendo espaço publicitário em sua testa para quem pagar mais no site de leilões eBay. Andrew Fisher, de 20 anos, que mora na cidade americana de Omaha, disse que vai manter uma marca ou um logotipo tatuado na testa por 30 dias."

À primeira vista, a idéia realmente parece cretina - "coisa de americano", diriam alguns. Porém, curioso como sou, pesquisei sobre o assunto e percebi a genialidade da intenção. Andrew "leiloou" a sua testa para conseguir dinheiro e pagar os estudos de publicidade. Ora, colocar um logotipo na testa para poder estudar publicidade mostra que o jovem tem um futuro promissor na carreira pretendida, afinal, sua idéia repercutiu no mundo todo e ainda lhe rendeu US$ 30 mil no final do leilão. E tudo isso para atingir um objetivo louvável: estudar.

Mas o fato de colocar ou não um logotipo na testa é indiferente. Usei essa notícia apenas para chegar ao ponto principal deste artigo: educação e vontade de aprender. O ser humano, desde que deu seus primeiros passos neste planeta, vem trilhando o caminho das descobertas, do aprendizado, tomando conhecimento de novas ciências e até tirando proveito dos próprios erros. A posse do conhecimento e da sabedoria sempre gerou figuras de destaque na história da humanidade. Mesmo aqueles que vieram de origem humilde buscaram aprender com os mais sábios para poderem formular suas próprias idéias. Se para fins benéficos ou nocivos, a inteligência (e o uso dela) sempre foi o meio utilizado na obtenção dos fins desejados.

Por inteligência não caracterizo aqui um diploma universitário, pois, é notório que muitos "doutores de canudo" vivem suas vidas na marginalidade de suas profissões. Porém, inteligência (e, novamente, o uso dela) culmina em conhecimento e vice-versa. Ambos andam de mãos dadas. Lógico, inteligência não significa coerência. Você pode ser um gênio para falcatruas, mas ainda assim será um gênio. Muito bem, aonde eu quero chegar com isso? Explico a seguir.

A inteligência e a busca pelo conhecimento é a força motivadora de qualquer ser humano, sendo que a compreensão é "elástica" - quanto mais se compreende, mais se pode compreender. Os países do mundo inteiro admiram e orgulham-se de seus sábios, filósofos e pensadores. Muitas mentes eruditas revolucionaram a forma como enxergamos nossas vidas. A inteligência, a cultura e a vontade de aprender cada vez mais são o que destacam o homem superior do homem mediano. Infelizmente, o nosso país insiste em eleger a ignorância e o despreparo como ícones do sucesso. Quanto menos se aprende, mais se é enaltecido. Prima-se pelo retrocesso.

Prova disso é a recente isenção do exame de inglês para os candidatos à carreira de diplomata pelo Instituto Rio Branco. Segundo o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, essa medida serve para eliminar o "fator elitista". Ora, desde quando falar inglês é sinônimo de elite? A medida, movida puramente por um fútil sentimento anti-americano, visa apenas colocar despreparados no Itamaraty. Pra que serve um diplomata que não fala inglês? Há os que digam que isso enaltece a "língua-pátria" - como se o português fosse o idioma mais falado no planeta. Há muito o idioma norte-americano superou o francês como "língua universal" e quebrou as barreiras sócio-políticas. Mesmo os países que não simpatizam com os EUA possuem o inglês como segunda língua. Por que nós devemos nadar contra a maré? Qualquer garçom ou guarda rodoviário da França está preparado para responder, em inglês, as dúvidas que lhe forem dirigidas. Se o Brasil é um país com inúmeros atrativos turísticos, falar vários idiomas é obrigação de cada brasileiro. Por que, então, em vez de se eliminar o inglês do exame para diplomata, não se intensifica os estudos desse idioma nas escolas públicas? Ou a intenção realmente é "nivelar por baixo"? Antigamente aprendia-se inglês, francês e até latim nas escolas. Hoje? Nem o português é ensinado, visto os resultados das redações do ENEM anualmente. Quem sabe nossos diplomatas possam se comunicar com representantes estrangeiros por meio de mímicas.

Para piorar mais a situação, o próprio Presidente da República, em mais um de seus adoráveis discursos (leia-o aqui) repletos de metáforas vazias, fez apologia à falta de estudos para homens públicos como um dos fatores principais para se enxergar os problemas "reais" da população. A conclusão à qual chegou nosso obtuso líder é a de que uma pessoa que se dedica aos estudos, adquire conhecimento técnico, gradua-se em uma faculdade, faz doutorado e esmera-se por manter-se atualizado em sua profissão, vive em um mundo diferente do nosso "mundo real", sendo incapaz de vislumbrar e resolver os problemas que atingem a sociedade. E ainda cita nomes como "Mano Brown" para provar sua proximidade com a filosofia popular. Se eu entendi direito, na visão do presidente, quanto mais se estuda, menos noção de realidade se tem. Teoria fascinante vinda de alguém que gastou R$ 154 milhões em um novo avião enquanto diz combater a fome no país. Gostaria de saber em qual "realidade" Lula está vivendo, pois, na nossa com certeza não é.

Em vez de se levar cultura e educação ao povo, para que tenhamos condições de desenvolver personalidades de repercussão mundial (e não falo de artistas e atletas), rebaixa-se o nível intelectual do governo para que possam falar a "língua dos pobres". De que nos adianta um presidente com a mesma mentalidade de um metalúrgico? Se o intelecto é o que separa o homem da barbárie, rumamos, então, para uma era de tacapes, fogueiras e grunhidos neanderthalescos. Dane-se o idioma inglês, o francês e todas essas línguas "imperialistas"! E eliminemos também o já esfarrapado português, que só nos causa constrangimento ao conversamos com pessoas mais esclarecidas. Pra que diploma? Estudar é inútil, já que qualquer semi-analfabeto pode ser presidente. Fechemos as escolas e as transformemos em estações agrícolas. Cada um consome aquilo que produzir. Eletricidade? De jeito nenhum, foi "inventada" pelos americanos e nós não podemos usar nenhum produto importado, pois o que temos aqui nos basta e sobra.

Sim, o "rei está nu", mas os súditos estão cegos. Enquanto lá fora jovens alugam suas testas para poderem estudar, aqui vendemos nossas almas para permanecer na beatitude da ignorância.

Publicado em 15/01/2005 no blog Hot Rod's Café