LEGALIZANDO A ILEGALIDADE
Vamos falar um pouco sobre produtos piratas. Aliás, falar de pirataria no Brasil é o mesmo que falar de samba e futebol. São costumes fortemente enraizados em nossa cultura. Porém, como o governo se posiciona veementemente contra a prática da pirataria, convido-os a analisar mais de perto essa realidade do nosso dia-a-dia. Muito se tem falado e pouco se tem feito no que tange ao combate à pirataria em nosso país. Volta e meia aparecem alguns artistas fazendo campanha contra CDs alternativos e criando alusão ao "crime" de se baixar filmes e músicas pela Internet, entre outras baboseiras. Pura demagogia barata. Você deve estar achando que sou favorável à pirataria. Bem, não sou. Mas coloco-me contra, entretanto, à forma ineficaz de como se combate esse mal. É complicado falar de apoio ou repúdio à pirataria no Brasil quando seus habitantes - em maior ou menor escala - possuem certo grau de conivência com a ilegalidade. Afinal, quem de nós não usufruiu (e ainda usufrui) das famosas "barraquinhas" dos camelôs? É errado? É. É contra a lei? É. Prejudica o comércio? Prejudica. E mesmo assim você compra? Compro porque é barato e não tenho condições de comprar o original. A pirataria é bem a cara do Brasil: "Sei que está errado, mas dá muito trabalho mudar, então, prefiro ficar reclamando". O problema da pirataria vai muito mais além dos camelôs e seu comércio ilegal. São raízes profundas em nossa economia e, também, em nossa cultura. A economia brasileira abre brechas enormes para que a pirataria se estabeleça facilmente. Os impostos absurdos e altíssimos praticamente nos convidam a apelar para o mercado alternativo. Em uma microempresa, às vezes o empresário precisa decidir entre investir em software ou em hardware, porque nos dois juntos não dá. Fatalmente, ele acaba optando por comprar novos equipamentos e piratear os softwares. Essa é uma realidade em todo o território nacional. De nada adianta a ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software) hipocritamente investir contra a pirataria (com multas absurdas) quando o próprio governo não cria condições de se trabalhar na legalidade. É dar murro em ponta de faca. Para resolver esse impasse, a primeira solução seria aniquilar os impostos sobre a importação, possibilitando a oferta de produtos originais a um preço compatível com nossa realidade. Um videogame, por exemplo, que custe lá fora U$ 100, se vendido aqui pelo equivalente em moeda nacional, aproximadamente R$ 300, e pudesse ser parcelado em 10 vezes, certamente atrairia o público consumidor. O problema é que esse aparelho de U$ 100 chega aqui custando R$ 1.200. Com a eliminação dos impostos, os produtos originais se tornariam mais competitivos. Talvez ainda não façam frente aos piratas, mas possibilitariam a legalização de muitas empresas. Tendo o crescimento no consumo de originais, a segunda atitude é criar incentivos fiscais para atrair empresas estrangeiras e fazê-las investir no país, estabelecendo vínculos duradouros, montando fábricas e, consequentemente, gerando empregos. A partir da remoção dos impostos absurdos e a fabricação de produtos (de qualidade internacional) em terra nacional, o preço de um produto cairia drasticamente. Além do que, a exportação seria beneficiada, pois, o Brasil poderia abastecer as Américas Latina e do Sul. É lógico que, entre muitos outros fatores, o poder aquisitivo do brasileiro também deveria aumentar. Só se oferece quando há procura, e só há procura quando as pessoas têm dinheiro, e só têm dinheiro aqueles que trabalham (em empregos justamente remunerados), e só trabalham aqueles que estudaram, e só estudam aqueles que não vivem na miséria. Perceberam a distância da realidade? Sem falar nos impostos trabalhistas, onde cada funcionário custa dois para o patrão. O empresário João Luiz Mauad retrata muito bem essa situação: "Até quando, meu Deus, os inocentes continuarão acreditando que a culpa de tudo é das tais "elites retrógradas" ou dos "empresários gananciosos", como se eles fossem muito diferentes, aqui e alhures? Será que a cegueira, por conta de décadas de doutrinação e propaganda marxista, condenará o cidadão brasileiro à eterna ignorância e à credulidade? Permanecerá ele, para todo sempre, incapaz de inferir que as verdadeiras causas da propalada desigualdade brasileira são, pela ordem: a (falta de) educação, décadas de (hiper) inflação (o imposto mais perverso que existe), o desperdício do dinheiro público e a corrupção? E, o que é ainda mais paradoxal, que todas elas são da exclusiva responsabilidade do reverenciado Leviatã benfeitor e suas aventuras desenvolvimentistas?" Na questão cultural, o brasileiro precisa passar por uma completa reeducação. Os japoneses, por exemplo, não são bem sucedidos porque fazem tai-chi antes de começar o expediente. Eles alcançam o sucesso porque existe um comprometimento entre o funcionário e a empresa, criando confiança e estabilidade. Perdoem-me a franqueza aqui, mas nós somos muito "folgados". O brasileiro tem horror a trabalho, está pouco se importando se o problema do colega ao lado pode lhe prejudicar. Não vê a hora de acabar o expediente para passar a noite em bares e botecos, falando mal do patrão - enquanto o patrão, muitas vezes, perde o sono para saber como pagará o salário desse funcionário. É lógico que estou generalizando, não existem empresários tão altruístas, mas você há de concordar que, para manter uma empresa funcionando, os empregados são necessários. Nosso comportamento como consumidores ainda é muito infantil. Há pessoas que fazem questão de ter uma BMW na garagem, mesmo não tendo dinheiro para colocar gasolina. O brasileiro é muito exibido, gosta de ostentar uma riqueza que não possui. Se já assimilamos tanta coisa dos EUA, por que não importamos, também, seu senso crítico? Lá na terra dos ianques, se algum produto aumenta descaradamente, os consumidores fazem um boicote: deixam de comprar tal produto (e lá eles podem se dar ao "luxo" de pagar pelo aumento). O fabricante, então, é forçado a baixar os preços até um nível aceitável. Aqui é totalmente o contrário. Se o preço da carne de frango, por exemplo, sofre um aumento abusivo, os imbecis tupiniquins são capazes de comprar toneladas de frango e fazer um churrascão em casa só pra mostrar que "podem" comprar. Ao contrário do que muita gente pensa, isso não é capitalismo, é burrice, mesmo. Assim, para combater a pirataria, é necessário realizar revoluções na economia e na mente da população. Essas histórias de "jeitinho brasileiro" e "levar vantagem em tudo" devem ser abolidas completamente do nosso comportamento. Enquanto não nos considerarmos um país sério, os investidores continuarão nos enxergando como um bando de palhaços subdesenvolvidos. Fazemos piadas aqui, mas são eles que riem (de nós) lá. Publicado em 26/11/2004 no blog Hot Rod's Café |