HONRA TUA PÁTRIA, Ó XENÓFOBO

Estava lembrando hoje cedo de uma cena peculiar que presenciei há cerca de um mês. Acho que reflete bem o momento pelo qual o mundo está passando. Voltava eu para o serviço depois da hora do almoço e, na minha frente, andavam uns quatro ou cinco jovens que haviam saído da escola. Iam conversando, descontraídos, quando se aproximaram da esquina da rua onde eu trabalho. Nessa esquina existe uma LAN House e ali, na entrada, encontravam-se uns garotos, aparentemente sem ter o que fazer.

Quando os jovens se aproximaram da esquina, um dos garotos da LAN House começou a mexer com uma menina do grupo. A princípio foi o famoso "psiu". A menina não lhe deu ouvidos e ele começou a falar, mais alto, tornando-se inconveniente. Percebi, pelas palavras do garoto, que ele já conhecia a menina ou já a tinha visto antes. Como a menina continuava impassível diante da "irresistível" cantada do garoto, este partiu para agressões verbais, começando a gritar. A menina, rapidamente, deu as mãos ao rapaz que andava ao seu lado. Essa atitude só serviu para irar ainda mais o emissor de insultos, que gritava: "eu sei que esse imbecil não é seu namorado, não adianta dar as mãos pra ele". Vendo que nenhuma de suas investidas surtia efeito, o garoto começou a bufar e gritar, partindo para ofensas ao rapaz que deu as mãos para a menina, chamando-o de "trouxa", "cretino" e coisas piores. O grupo de jovens atravessou a rua, sequer dando atenção para o beócio que explodia de raiva. Foi nesse momento, então, que ele soltou a pérola que originou este texto. Com os braços levantados, os olhos injetados e o rosto vermelho, o garoto gritou a plenos pulmões: "Eu sou mais homem que esse cara, olha só pra ele, usa a bandeira do Japão na mochila! Estamos no Brasil, honra a tua pátria, imbecil"!

Nesse momento, enquanto o garoto gritava "honra a tua pátria", percebi que ele dizia isso de dentro de uma calça da M. Officer e calçando um par de tênis Nike. Só depois vi que ele também brandia uma garrafa de vinho na mão. Para descrever a atitude dessa criatura, sou forçado a usar uma frase de outra figura não menos irracional, Lênin: "Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz". Não tendo seus escândalos verbais correspondidos e vendo que nada surtia efeito, o inflamado garoto partiu para a acusação mais estúpida que lhe veio à mente, criticando o uso de um símbolo estrangeiro numa mochila escolar, sem perceber que se enquadrava em sua própria acusação.

Assim são aqueles que defendem o "nacionalismo" a todo custo. Não percebem que o consumo de produtos estrangeiros, seja um cordão de sapato ou um Big Mac, está irreversivelmente enraizado em nossa cultura. Os brasileiros, há algum tempo, começaram a estufar o peito e imaginam-se como o melhor povo do mundo. Tornaram-se arrogantes, preconceituosos e orgulham-se de sua própria falta de cultura. Talvez seja o reflexo do atual exemplo que temos na presidência, não sei, mas o fato é que tal atitude nada mais representa a não ser o bando de recalcados e infelizes que somos. Não é incomum ouvir alguém dizer que os japoneses vêm ao Brasil roubar empregos dos brasileiros; ou que os americanos são "vampiros capitalistas" cujo único propósito é sugar nossas reservas naturais e colocar o povo sob sua servidão.

Tais afirmações não poderiam distar mais da verdade. Se os japoneses aqui chegam, é porque enxergam oportunidades que os próprios brasileiros não enxergam - ou são preguiçosos demais para enxergar. Por que os EUA iriam querer escravizar um povo se é muito melhor tê-lo como consumidor? Não, os "patriotas temporários" recorrem a argumentos como o roubo da Amazônia para validar suas idéias, sem nem mesmo se preocuparem em verificar tais afirmações. Gritam e esbravejam como o garoto da LAN House, mas não percebem cometem os mesmos erros daqueles a quem direcionam as suas acusações.

Atualmente estamos presenciando um forte movimento "anti-americano" e "anti-Bush", porém, vocês já pararam para se perguntar qual o real motivo para se odiar os EUA? Será que esses que tanto se agitam estão realmente preocupados com a morte dos iraquianos? Comovem-se e sentem asco quando um soldado norte-americano alveja um terrorista muçulmano em combate, porém, calam-se quando uma mulher-bomba com carrinho de bebê explode covardemente a si e ao filho, tentando fazer o maior número de vítimas possível - pior ainda, alguns dizem que essa é a única maneira daquele povo se fazer ouvir. Eu não lembro, por exemplo, de ter visto Gandhi explodindo alguma coisa, e ele foi ouvido. Se o terrorismo é uma forma de expressão, então os fins justificam os meios, não?

A meu ver, esse sentimento xenofóbico aos EUA serve mais para que as pessoas tenham assunto entre as rodinhas de amigos do que para um movimento em prol da humanidade. Afinal, aqui no Brasil morrem mais pessoas nas mãos de criminosos do que as vítimas da guerra no Iraque. Por que ninguém se revolta contra os brasileiros que assassinam brasileiros? Isso me cheira mais a inveja e despeito do que preocupação com o Iraque. O que aconteceria se, de repente, a África se tornasse uma superpotência bélica e econômica? Iríamos odiar negros e africanos?

Eu não sou contra investir em produtos nacionais, porém, para tanto, é necessário que esses produtos sejam realmente bons, capazes de competir com as marcas estrangeiras. Ou vai me dizer que, se você tiver opção, preferirá comprar um aparelho de DVD da CCE em vez de um da Sony?


Publicado em 17/11/2004 no blog Hot Rod's Café