CREME, BATONS E FIBRA DE VIDRO
Se existe um mundo estranho e incompreensível, esse mundo é o da beleza feminina. Não me refiro à beleza natural das mulheres, mas às torturas e peripécias a que elas se submetem em nome da plástica exterior. Os salões de beleza parecem, aos meus olhos, verdadeiros calabouços medievais repletos de instrumentos e engenhos desenvolvidos para os mais sombrios propósitos. Não me entendam mal, eu não sou contra. Acho apenas que esse é um universo alienígena para mim. Tão alienígena que eu me surpreendo sempre que descubro a utilidade de determinado produto. Há algum tempo, ao deixar minha namorada em um salão desses, soube que existe a interessante profissão de "designer de sobrancelhas". Fascinante. Esse é, com certeza, o objetivo profissional de milhões de pessoas. E anteontem tomei conhecimento de mais um processo curioso. A agência onde eu trabalho conseguiu um novo cliente: um salão de beleza. Fiquei encarregado de elaborar alguns textos sobre os serviços oferecidos pelo salão e, entre um dos temas, estava o "bronzeamento a jato". Como eu não fazia a mínima idéia do que era isso (minha mente imaginou alguém em pé atrás da turbina de um avião), resolvi procurar pelo assunto na Internet. O processo não se parece com o que eu imaginei, mas também não foge muito do bizarro: a pessoa fica em pé, com braços e pernas bem abertas, e vem alguém com uma pistola de spray "besuntar" a vítima com um produto químico que reage na pele e produz o bronzeamento em questão de horas - o câncer de pele também deve chegar mais rápido. O mais engraçado é que, na semana passada, eu escrevi um artigo para uma indústria química sobre o processo de FSP (Fiber Spray Putty), onde um molde de fibra de vidro é recoberto com resina por meio de uma pistola de spray. Ou seja, o bronzeamento a jato é um "FSP humano". Um outro assunto que me fez perceber o quão leigo eu sou a respeito do universo feminino é a hidratação. Esse era outro dos tópicos do salão de beleza e eu, na ingenuidade, recorri à minha própria imaginação para escrever o texto. A inspiração estava alta e eu deixei as palavras correrem soltas, falando de "pele macia", "toque de pêssego", "livre de impurezas" e outras frases semelhantes. Quando estou quase terminando, comentei sobre o texto com uma colega, explicando que a parte da hidratação era mais fácil de escrever, e ela responde: "Realmente, não tem muito o que falar. São apenas produtos aplicados nos cabelos". Como assim "cabelos"? A hidratação não é para a pele? "Não", responde ela. "A hidratação é para os cabelos, por que? O que você achou que fosse?" Resumindo, tive que reescrever o texto desde o princípio. Mas isso me ensinou uma importante lição: É mais fácil trabalhar com a maior das indústrias químicas do que com o menor dos salões de beleza. Publicado em 27/10/2004 no blog Hot Rod's Café |