03/09/2010

Emilio Calil :: Blog

Comentando o cotidiano

Sobre Honduras e moral

Posted by Emilio Calil On setembro - 28 - 2009 COMENTAR

Estou me divertindo com a confusão que se estabeleceu em Honduras. Quer dizer, não que eu esteja feliz com a situação dos hondurenhos, que vão acabar pagando o pato por ações irresponsáveis de uma meia-dúzia de imbecis. Mas estou gostando de ver como Honduras tem se mantido firme em sua defesa da Constituição, ao mesmo tempo em que muitos paspalhos acusam-na de desrespeitar a Constituição.

Você já deve conhecer o imbróglio: A ratazana Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras, foi deposta do cargo por desrespeitar a Constituição do país ao querer forçar um plebiscito para sua própria reeleição. Como reeleições não estão previstas na Constituição, Zelaya simplesmente ignorou tudo e tentou fazer as coisas à força. Deu no que deu: Foi destituído do cargo e expulso do país. Se voltasse, seria preso. Voltou. Mas está escondido na embaixada brasileira, o que é ilegal. O governo de Honduras exige que o país defina o status de Zelaya, porque, se ele for considerado exilado, terá que voltar ao Brasil. Se não for, será preso em Honduras. Ou seja, o Brasil está com uma batata quente, gorda e bigoduda nas mãos. E se recusa a admitir isso.

A nossa ratazana daqui, que atende pelo nome de Lula da Silva, disse que não aceitará imposições de um governo "golpista". Mas na verdade quem queria dar o golpe era o Zelaya (ou Zé Laia, como o andam chamando). Sem mencionar que, quando o assunto é o Irã ou países do Oriente Médio que servem de ninhos para terroristas, o mesmo Lula disse que nação alguma tem o direito de se meter em assuntos internos de outros países. Sei, sei…

O mais divertido mesmo é ver o Brasil fazendo papel de palhaço nessa história. Está abrigando um cretino em sua embaixada de Honduras. Chama de "golpista" um governo que não invadiu a embaixada e procura meios legais de tirar Zelaya de lá. Um desses meios pode ser a revogação do status da embaixada, que, a partir do momento que for considerada "ex-embaixada", as coisas podem não acabar muito bem.

Zelaya disse que está sendo torturado por (pasmem!) agentes secretos israelenses que disparam ondas de radiação. Parem pra pensar só um pouquinho… Isso está mais para um roteiro de Monty Python do que para história real. Não tem jeito, onde quer que o Brasil se meta, tudo vira palhaçada. Tudo acaba em samba mesmo!

Quem tem acompanhado as crônicas do Reinaldo Azevedo tem se divertido, também. Azevedo foi o primeiro (ou um dos primeiros) a alertar que foi Zelaya quem desrespeitou a Constituição hondurenha, e não o contrário. Como de praxe, caíram matando em cima dele. Agora que a grande mídia se deu o trabalho de ler a tal Constituição, fica fazendo rodeios para não admitir o erro.

Não acredito que essa situação em Honduras acabe mal. Ou que haja grandes prejuízos para o país. Imagino que cedo ou tarde Zelaya será preso e Lula, mais uma vez, desmoralizado. Mas que é ‘moral’ para a esquerda, senão uma simples palavrinha que se evoca vez ou outra contra seus adversários?

Sobre liberdade de imprensa

Posted by Emilio Calil On agosto - 6 - 2009 2 COMENTARIOS

O protótipo de ditador venezuelano, Hugo Chávez, manda prender qualquer jornalista que publicar matérias contrárias à opinião de seu governo. Aqui no Brasil, Fernando Sarney, filho de José Sarney, ganhou na justiça uma liminar que impede o jornal O Estado de S. Paulo de divulgar suas falcatruas. Tudo isso, segundo os próprios autores, em nome da ‘democracia’.

Neste momento toda a imprensa está de mãos na cintura fazendo beicinho de inconformada, ressuscitando jargões como "censura" e "ditadura". Haja paciência. Ora, não é essa mesma imprensa que, durante décadas, vem lambendo e enaltecendo a esquerda e o comunismo/socialismo como a solução para os males do mundo? Não são esses mesmos jornalistas que publicam matérias tendenciosas criticando o "imperialismo americano" enquanto embutem um viés marxista nas entrelinhas de seus textos?

Afinal, que representam a esquerda e o socialismo senão miséria, pranto, destruição, privação da liberdade e controle absoluto das massas? Como dizia Churchill: "O vício inerente ao capitalismo é a distribuição desigual de benesses; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias."

Pelo que me consta, por mais criticado que tenha sido, o ex-presidente dos EUA, George W. Bush, jamais tentou censurar a imprensa, que abertamente lhe fazia oposição.  Faz parte do jogo, não?

Portanto, não me venham agora nossos jornalistas fazer cara de espanto diante de atitudes absolutamente normais e esperadas da parte de governantes que, direta ou indiretamente, esses próprios jornalistas os ajudaram a ocupar seus atuais cargos. Que um cidadão sem instrução caia no conto do vigário sobre o socialismo, entende-se. O que não admito é ver gente instruída (?) defendendo um sistema totalitário e fingindo-se surpresa quando esse sistema começa a exercer sua função natural. Há um ditado que diz: "Um homem resolveu criar um filhote de crocodilo que, quando cresceu, o devorou".

Se a imprensa deseja realmente lutar pela liberdade de expressão, então que comece imediatamente a enterrar suas ideologias emboloradas e passe a fazer aquilo que deveria ter sido feito há tempos: jornalismo em vez de doutrinação. E isso independe da posse ou não de um diploma. É a busca pela verdade dos fatos que faz um jornalista, e não um canudo de papel.

Os bovinos fumantes

Posted by Emilio Calil On maio - 18 - 2009 2 COMENTARIOS

Muito já se falou e se escreveu sobre a nova Lei Antifumo sancionada pelo governador José Serra, que passa a vigorar a partir de 1º de agosto deste ano, mas resolvi deixar aqui minha opinião também.

Detesto cigarro. Não suporto o cheiro da fumaça e detesto que fumem perto de mim. Entretanto, jamais me ocorreu tratar os fumantes como criminosos ou seres alienígenas. Tenho amigos que fumam e não fico lhes passando sermão sobre saúde, câncer de pulmão ou coisa semelhante. Que o cigarro incomoda, não há dúvida. Mas daí a cortar relações com a pessoa ou proibi-la de fumar perto de mim é outra história. Há maneiras educadas e civilizadas de se tocar no assunto e chegar a uma solução.

O escritor e jornalista Janer Cristaldo também publicou um ótimo texto em seu blog sobre o assunto, que reflete grande parte do que eu penso a respeito dessa lei inconstitucional. Sem falar que a lei atinge diretamente os estabelecimentos comerciais e não os fumantes propriamente ditos. Que raio de lei é essa que pune uns pelo delito de outros?

Para não me estender muito, gostaria de saber se essa férrea disposição para erradicar o cigarro da face da Terra também se aplica ao combate às drogas.

Afinal, é muito fácil gritar e esbravejar com pessoas de bem, cidadãos comuns e pagadores de impostos cujo vício é colocar um cigarro na boca. Transformar pessoas inocentes em criminosos da noite para o dia por meio de lei imbecil e posar de grande herói que combate o mal do tabaco em prol da saúde pública é, além de demagógico, fácil demais. O cidadão de bem não vai se revoltar, não fechará ruas e queimará pneus, não invadirá prédios ou repartições públicas nem promoverá revoluções pelo direito de fumar. Ele vai, bovinamente, aceitar a lei e restringir o fumo à sua residência, enquanto isso ainda lhe é permitido.

Gostaria de ver José Serra falando grosso dessa forma contra traficantes e usuários de drogas (da maconha ao crack). Teria ele cojones para declarar realmente guerra ao tráfico e colocar seus ‘fiscais’ pra subir morros e favelas, ir dos bairros mais pobres aos mais luxuosos atrás do mínimo sinal de consumo de drogas? Teria José Serra a coragem de se colocar veementemente contra a liberação da maconha?

Claro que não. Para o crime (ou parceiros), as vistas grossas do governo. Melhor bater em quem não reage.

Change!!!

Posted by Emilio Calil On maio - 16 - 2009 COMENTAR

Mais duas do homem que veio salvar o mundo:

Sri Lanka prova incapacidade de Obama, dizem especialistas
ONGs criticam Obama por reabrir tribunais militares

Vamos continuar esperando a tão anunciada “mudança”. Não serão cento e poucos dias de absoluta inércia no governo que tirarão as esperanças da humanidade, não é? Afinal, se o homem resolvesse tudo em dois dias, não teria muito o que fazer nos próximos anos. Precisa haver emoção, desafio, senão perde a graça.

Se a esperança é a última que morre, então ainda veremos uma chacina de sentimentos até chegar a vez dela. Os ‘obamistas’ (ou ‘obabacas’, como quiser) devem estar pensando: “Droga! Se ao menos ele começasse a andar logo sobre as águas…”

A lógica de Lobão

Posted by Emilio Calil On maio - 12 - 2009 COMENTAR

Leio no Estadão:

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse hoje, na Refinaria do Planalto (Replan), em Paulínia (SP), que é dever do País preservar a Petrobras e evitar críticas e acusações. “A Petrobras é um orgulho nacional”, afirmou. “É dever, portanto, preservar uma empresa nacional deste porte, desta magnitude, desta envergadura, para que ela sirva sempre aos melhores interesses nacionais. E não prejudicá-la, desgastando-a, criticando-a, acusando-a muitas vezes daquilo que ela não tem culpa. Isto não serve ao País, não serve a ela, não serve a nenhum dos senhores”, disse o ministro. “Este é um País que sabe por onde vai. Basta que seus governantes não o atrapalhem. E ele cuidará de si mesmo, quase que sozinho.”

Seguindo o raciocínio do ministro, a Petrobras está acima de qualquer crítica só porque é uma empresa brasileira. E, por isso, deve ter sua imagem preservada. Ora, que tem a ver a nacionalidade de uma empresa com a idoneidade de seus negócios?

Aliás, a Petrobras deve ser criticada sim, não por ser brasileira, mas por ser uma estatal. Que ‘orgulho’ pode nos trazer uma empresa dessas se nada, absolutamente nada do que ela produz é revertido em benefícios para os brasileiros? A menos que você considere benefício o patrocínio de péssimos filmes, peças de teatro e eventos dito ‘culturais’ – que nada mais são do que pretexto para jogar dinheiro público no lixo (ou encher os bolsos de cineastas que não estão nem aí se o filme fizer sucesso ou não).

Fora isso, sendo a Petrobras nacional, o preço da gasolina nos postos BR deveria ser mais barato. Mas não é. E mais, no mundo inteiro houve uma queda de preços significativa do barril do petróleo, que se reverteu em redução de preços do litro da gasolina. Que fez a Petrobras? Lançou um comunicado dizendo que não iria reduzir preços por que esta é uma decisão política da empresa.

Que orgulho, então, pergunto ao ministro Lobão, deve o brasileiro sentir deste que é o maior e mais inchado cabide de empregos do Brasil? Que a Petrobras tenha lá seus méritos, concordo. Mas isso é motivo para isentá-la de críticas? Só na cabeça de quem possui uma lógica torpe.

Mas concordo com o ministro quando diz que o país cuidaria de si mesmo quase que sozinho, bastando que seus governantes não atrapalhem. Sendo assim, peço então a Lobão que desde já tome a iniciativa dessa declaração e saia de cena o mais rápido possível.

A melhor foto da semana

Posted by Emilio Calil On maio - 5 - 2009 COMENTAR

Quando você acha que a humanidade está perdida em termos de história, onde bandidos são tratados como heróis e heróis como bandidos, de vez em quando surgem atos que despertam lá no fundo da alma uma ponta de esperança. Como, por exemplo, isto aqui.

Palmas para os vienenses (se é que foram mesmo vienenses os autores da proeza). Trataram essa pusilânime criatura como merece. Teriam os brasileiros a mesma coragem dos austríacos de encarar a verdade ou será que os ignorantes ainda estão por aí brandindo cartazes de “Fora Bush”?

Desmarxificando

Posted by Emilio Calil On março - 23 - 2009 COMENTAR

Já faz algum tempinho que a seguinte mensagem tem circulado pela web em e-mails, fóruns e listas de discussão:

“Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado.”

Karl Marx, in Das Kapital, 1867

Antes que alguns desavisados saiam por aí repassando esse texto profético do Marx como prova da sapiência do homem que engravidou a empregada e abandonou-a com o filho ao deus-dará, é bom saberem que esse parágrafo é falso. Podem procurar em todo o O Capital e não o encontrarão em página alguma. Notem que no e-mail é citado o autor, o nome do livro e o ano, mas não cita a página onde encontrar a frase.

Querem os espertinhos esquerdistas fazer crer que a atual crise financeira mundial é culpa do capitalismo. Não é. Mas isso é assunto para outro artigo mais complexo.

Quis apenas alertar para esse falso texto atribuído a Marx. É como na época dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando começou a circular uma ‘profecia’ de Nostradamus que previa a queda das Torres Gêmeas. Outra farsa. Se bem que, nesse caso, acusar um texto de Nostradamus de farsa é quase um pleonasmo.

Clipping: 2ª semana de março de 2009

Posted by Emilio Calil On março - 13 - 2009 2 COMENTARIOS

O apanhado de notícias da semana. Dessa vez os links renderam um pouco mais:

Provador de café faz seguro da língua por R$ 34 milhões
Colombo se chamava “Pedro” e era genovês, diz historiador
Hortelã pode tratar doenças causadas por germes (A ciência descobrindo o que nossos bisavós já sabiam)
Crânio de possível vampiro do século XVI é descoberto
Consumo de maconha reduz a capacidade de dirigir (Não brinca! Sério?)
“Ritual” de macaco antes de atirar pedra indica premeditação (Já pode ser enquadrado no art.15 do Código Penal)
Descobertas jóias de ouro com 3 mil anos em tumba egípcia
Servos da gleba (Reinaldo Azevedo comentando sobre ditaduras)
Neurônio artificial pode criar estrutura capaz de emular cérebro humano
Google Docs vaza documentos de usuários
Polícia indiana usa ratos para conter praga de camundongos
Cientistas britânicos descobrem “peixe drácula”
Aventureiros atravessarão oceano em barco de garrafas pet
Fadiga mental pode induzir fadiga física, diz estudo (Mens sana in corpore sano)
Após estréia, Wi-Fi em Dona Marta desaba (Como qualquer serviço público brasileiro)
Relógio de Lincoln guardava mensagem secreta
Abaixo Babel! (Crônica do Cristaldo sobre a ‘morte das línguas mortas’)
Depois de 130 anos, geladeiras poderão ter avanço tecnológico
O Tio da Aviação (Diogo Mainardi discorre sobre quem realmente inventou o avião)
Estudo mostra que Homo erectus é mais velho que o estimado
Descoberta igreja do Império Bizantino em Israel
Internet Explorer 8 é mais rápido do que Chrome e Firefox
Nasa detecta buraco negro em “cabelo” de Medusa
O fim de uma farsa que durou 10 anos (Outra crônica do Azevedo sobre as privatizações do governo FHC)

Sobre heróis e ídolos

Posted by Emilio Calil On março - 12 - 2009 31 COMENTARIOS

Se existe algo que me incomoda profundamente é a obsessiva adoração de ídolos de barro por acéfalos desprovidos de opinião própria. Não digo propriamente as ‘modinhas’, como gostar de determinado artista ou grupo musical em evidência – isso é inerente à estupidez da adolescência. Refiro-me a elevar certas personalidades a status de semideuses infalíveis.

Pode-se admirar o trabalho de uma pessoa ou até admirar certas qualidades dessa pessoa; mas não dá para admirar o trabalho da pessoa só porque foi feito por essa pessoa ou admirar a pessoa só porque fez o trabalho. Confuso? É como gostar de todo e qualquer filme feito por Steven Spielberg só porque foram feitos por Spielberg; ou gostar de Spielberg só porque ele faz filmes.

Há muito se perdeu a capacidade de criticar. Só por que você gosta desta ou daquela pessoa, não significa que tudo o que ela faça seja perfeito. E essa incapacidade de enxergar defeitos em quem se admira cria imbecis sugestionáveis. Você pode gostar das coisas que eu escrevo, mas não significa que precise concordar com tudo. Aliás, nem deve! Raciocinar implica em também discordar de quem admiramos.

Estava pensando nesse assunto hoje cedo, enquanto vinha para o trabalho. Sendo contemporâneo de Obamas, Lulas e Bonos da vida, tidos como ‘heróis’, ‘líderes inspiradores’, ‘exemplos a serem seguidos’ – e sabendo que não são nada disso – fico imaginando o quanto é realmente verdade a respeito do caráter e dos feitos dos grandes nomes da História. Terão sido de fato tudo aquilo o que se escreveu sobre eles?

A segunda grande invenção do homem bem que poderia ser uma máquina do tempo (segunda, pois jamais superaria o ar condicionado).

Ecologicamente tóxicos

Posted by Emilio Calil On março - 10 - 2009 COMENTAR

Divirto-me ao ler sobre o empenho de empresas para se mostrar ecologicamente responsáveis. Agora todos querem fazer deste planeta um lugar melhor. Muitos setores da indústria já possuem suas chamadas ‘linhas verdes’ de produtos. Até internet entrou na roda, com o debate de que sites com fundo preto gastam menos energia do monitor – e há os que defendem o contrário, que sites brancos são menos poluentes.

Há uns dez anos, para uma empresa ser ‘moderna’, não podia vender produtos, tinha que “fornecer soluções e se comprometer com resultados dos clientes”. Hoje isso é o mínimo que se espera. Agora o mote mudou, empresa moderna cuida do meio-ambiente. Ora, isso também é o mínimo, e não diferencial.

Não ironizo a redução de poluição, reciclagem e coleta seletiva. São ações importantes. A ironia está em ver que isso é apenas moda. Alguém disse que consumidores compram mais de empresas engajadas com o meio-ambiente e agora um quer ser mais ecológico que o outro. Isso é coisa de eco-chatos esquerdistas que vivem falando em causas ambientais, mas sem resultados. É como abraçar árvore. Ninguém está nem aí para a derrubada de árvores, então faz-se uma ação onde pessoas dão as mãos e ‘abraçam’ uma árvore. Pronto, a natureza está salva.

Isso me remete a meados de 2005, época em que a agência onde trabalhei atendia uma indústria química de Piracicaba. Visitei o lugar algumas vezes. Quem andasse pelas instalações não imaginaria que ali se produzia resinas. Entre os galpões e tonéis, ruelas de pedra arborizadas davam num jardim com quiosque e churrasqueira. Parecia um sítio. Acima ficava o reservatório de água, com muros forrados de vegetação e uma criação de carpas. Para quem não sabe, carpa demanda água cristalina e cuidados especiais para sobreviver. Aquelas carpas habitando a água tratada da fábrica provavam o cuidado com o meio-ambiente.

Conversando com o diretor comercial, sugeri ressaltar essas preocupações ambientais com clientes e imprensa. Sorrindo, me respondeu: “Bem, Emílio… Apesar do verde e água limpa, eu não usaria isso como diferencial. Há alguns meses houve um vazamento e os resíduos contaminaram água e solo de uma favela lá embaixo no vale. Tivemos problemas sérios com a prefeitura e ficamos com a pecha de empresa malvada que despeja lixo tóxico nos pobres”. Tragicômico. Com tantos lugares para o vazamento escoar, foi logo para a favela.

Não basta querer ser ou se auto-proclamar ecologicamente responsável. O menor descuido destrói essa imagem.

Outro exemplo clássico é o do ex-vice-presidente americano Al Gore e seu demagogo evento Live Earth, que reuniu, em 2007, artistas de todo o mundo contra o aquecimento global e desperdício de energia, sendo que o próprio Gore gasta mais energia em um mês na sua casa do que um americano médio em um ano.

Tenho visto gente comemorar o surgimento do Kindle, o leitor de e-books da Amazon. É sem dúvida um produto revolucionário – você armazena centenas de livros digitais em um único aparelho. Mas esses que celebram o Kindle mandam uma mensagem aos jornais convencionais: “Parem de derrubar árvores!”. Alto lá! Apesar dos leitores de e-books substituírem livros e jornais de papel, não podemos ignorar que o produto é feito de plástico, possui tela LCD e usa bateria – para ler as notícias do dia, você estará gastando energia. Não que o Kindle seja um agente poluente, mas há de se pesar os prós e contras. Árvores podem ser replantadas.

E mais uma vez volto àquele diretor da indústria química. Na mesma conversa, insisti que poderiam fazer parceria com algum instituto de proteção ambiental. E ele: “Veja bem, Emílio. Nós não fabricamos móveis, não vendemos frutas, não produzimos tecidos. Somos uma indústria química que produz plástico, produto que leva mais de 100 anos para começar a se decompor. O plástico sempre será visto como o pior vilão contra a natureza. Nenhum instituto ambiental se interessaria em nos ter como parceiros, pois nosso trabalho implica em poluir mais ou poluir menos, mas sempre poluir. É bem provável que estejamos, neste exato momento, contribuindo para o fim do mundo. Mas o planeta inteiro depende de plástico e, até que alguém invente uma alternativa viável, não há nada que nós ou nossos concorrentes possamos fazer”.

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