03/09/2010

Emilio Calil :: Blog

Comentando o cotidiano

Os deuses sumérios

Posted by Emilio Calil On agosto - 11 - 2010 2 COMENTARIOS

 Uma das leituras que mais me fascina é sobre história antiga. E por ‘antiga’ entenda-se de quatro mil anos para trás. Impossível ler sobre civilizações que surgiram, cresceram e desapareceram sem denotar um mínimo de entusiasmo. Quem foram aquelas pessoas? Como era seu cotidiano? Claro que essas perguntas encontram respostas nos livros de história e nos achados arqueológicos – estelas de argila, inscrições, pergaminhos e papiros, que permitem traçar um esboço desses povos. Assim, temos noção de formas de governo, costumes, religião, comércio, leis e todos os elementos que compunham aquela sociedade.

Foi pesquisando sobre civilizações antigas atrás de referência para um projeto pessoal que me aprofundei na fascinante civilização da Suméria. Ela foi, sem dúvida, a mãe das civilizações da antiguidade e grande influenciadora da evolução do mundo como o conhecemos. A Suméria (Sinar na Bíblia, Sangar no Egito e KI-EN-GIR na língua nativa), que significa “Lugar dos Senhores Civilizados”, é considerada a civilização mais antiga da humanidade, localizava-se na parte sul da Mesopotâmia, posicionada em terrenos conhecidos por sua fertilidade, entre os rios Tigre e Eufrates. Evidências arqueológicas datam o início da civilização suméria em meados do quarto milênio a.C. Entre 3500 e 3000 a.C. houve um florescimento cultural e a Suméria exerceu influência sobre as áreas circunvizinhas, culminando na dinastia de Ágade, fundada em aproximadamente 2340 a.C. por Sargão I, sendo que este, ao que tudo indica, seria de etnia e língua semitas. Depois de 2000 a.C. a Suméria entrou em declínio, sendo absorvida pela Babilônia e pela Assíria.

Duas importantes criações atribuídas aos sumérios são a escrita cuneiforme, que antecede todas as outras formas de escrita, tendo sido originalmente usada por volta de 3500 a.C.; e as cidades-estado – a mais conhecida delas sendo a cidade de Ur, construída por Ur-Nammu, o fundador da terceira dinastia Ur, por volta de 2000 a.C.

Comecei a pesquisa em incontáveis páginas da web e culminei na bibliografia de Zecharia Sitchin, de quem já li uns cinco livros até agora. Sitchin, para meu desgosto, é outro desses adeptos da infame teoria de antigos ‘deuses astronautas’, indo na mesma linha do suíço Erich Von Däniken.  Sitchin nasceu em Baku, Azerbaijão, foi criado na Palestina e adquiriu conhecimentos do hebraico antigo e moderno e outras línguas europeias e semíticas, do Velho Testamento e da história e arqueologia do Oriente. Fazendo a tradução de idiomas ancestrais, ele chamou minha atenção por tocar num outro assunto de meu interesse: a etimologia. Daí o porquê de eu manter a leitura.

Traduzindo as milenares escritas cuneiformes sumérias, ele defende a tese de que há 400 mil anos os deuses da antiguidade foram astronautas que vieram de outro planeta, chamado Nibiru. Ele chegou a essa conclusão ao traduzir escritas sumérias que diziam ser as primeiras dinastias na Terra constituídas pelos ‘deuses’, ou os AN.UNNA.KI, cuja tradução é “Aqueles Que Do Céu à Terra Vieram”. E a partir daí surge uma profusão de nomes, lugares e acontecimentos que se mesclam e se confundem. Em muitos momentos as deduções encontram um paralelo hollywoodiano, como o fato dos alienígenas virem à Terra para extrair ouro, transformá-lo em pó e pulverizar a atmosfera de Nibiru, que estava se desfazendo – morra de inveja, James Cameron.

Devaneios à parte, Sitchin reconstrói uma época pré-diluviana onde deuses realmente andaram entre os homens. Quanto mais eu lia os livros, mais certeza tinha de que esses deuses foram reais. Fica nítido que os grandes ANU, ENKI, ENLIN, NINHURSAG, MARDUK, NABU, INANNA e dezenas de outras ‘divindades’ foram pessoas reais. Homens e mulheres de profundo conhecimento e sabedoria, que ditaram regras para criar uma poderosa civilização. Os atributos metafísicos ou alienígenas ficam por conta da imaginação de Sitchin, que é veementemente rebatido neste site por Michael Heiser, Ph.D. em estudos semíticos e hebreus da Universidade de Wisconsin-Madison.

É nítida a influência dos ‘deuses’ sumérios na Babilônia, Egito, Pérsia, Grécia, etc. Eram seres com amores e desafetos, constituíam família, iravam-se, riam, guerreavam, presenteavam, tinham relações incestuosas e davam pouca atenção aos ‘mortais’. Exatamente como os deuses gregos e egípcios. Daí conclui-se que a similaridade dos deuses antigos entre culturas diferentes é um reflexo ou cópia do panteão sumério. Por exemplo, a história de Inanna (Ishtar, na Babilônia) e sua insaciável libido remete à Afrodite/Vênus. Anu, o deus mais distante e que comandava os outros, é Zeus/Odin. Os irmãos Enki e Enlil são contrapartes egípcias de Ptah e Tot, respectivamente. Marduk é Rá no Egito, mas seu nome babilônico nas escrituras bíblicas é Merodaque. E por aí vai.

Os nomes de notórios monarcas da antiguidade também estão intimamente ligados aos nomes dos ‘deuses’ aos quais eles eram devotos. No princípio, dizem os textos sumérios, os reis eram sacerdotes e serviam de interlocutores com a população. Com o tempo, os ‘deuses’ foram ampliando os poderes desses sacerdotes para que pudessem ter autonomia de governo, dando origem às monarquias. Esses reis mantinham em seus nomes o nome da divindade favorita, como no caso dos reis babilônicos Nabupolasar e seu filho Nabucodonosor – ambos com o nome do ‘deus’ NABU nas iniciais, afirmando uma linhagem divina. Essa mesma formação de epítetos ocorre no Egito, no nome do faraó Ramsés (RA-MOSES ou Ra-Ms-S), que significa “Filho do Deus Rá”.

Pela visão dos sumérios, entende-se a criação do horóscopo e notamos que as adivinhações publicadas nos jornais  não são nem a sombra da ciência de observação astronômica da antiguidade. Para os sumérios (ou os Anunnaki), havia diferença entre Destino e Sorte. O Destino era tudo o que se podia prever – como a movimentação dos corpos celestes, o dia depois da noite, as estações do ano e tudo o que mantinha um movimento constante. A Sorte eram os acontecimentos que estavam além da capacidade de previsão dos próprios ‘deuses’ – os imprevistos. Assim, os sumérios sabiam que em determinada época do ano uma constelação seria vista no céu; mas não podiam dizer se alguém morreria nesse período. Parece idiota aos olhos do século XXI, mas pense nisso há seis ou sete mil anos atrás.

Surpreendeu-me, também, descobrir que ainda hoje temos influência suméria em nosso vocabulário. Por exemplo, a palavra suméria E.DIN é traduzida como a “Morada dos Justos” (de onde pode ter derivado a palavra bíblica Éden). A região de E.DIN ficava entre os rios Tigre e Eufrates, local que viria a ser conhecido depois como Mesopotâmia. É lá que se encontram os picos gêmeos do monte Arrata (Ararat). Foi em E.DIN que a primeira cidade, E.RI.DU (“Lar na Lonjura”), estabeleceu-se. O nome ‘Eridu’ foi traduzido para muitos idiomas do mundo, incluindo alemão (Erde), inglês médio (Erthe), curdo (Ertz) e hebreu (Eretz). A palavra acabou por se tornar o que em inglês atual conhecemos como Earth (Terra).

Como E.RI.DU era o nome de uma cidade-estado, os sumérios tinham outra palavra para designar o planeta Terra, que era Ki (o mesmo significado do ‘ki’ de An.unna.ki). Em acadiano, Ki tornou-se Gi (ou Ge) – de onde saiu a palavra Geo (de geografia, geologia, etc.). Mais tarde, os indo-europeus acrescentaram a palavra ‘Aia’, que significa “avó”, e daí surgiu a palavra Gaia, a “Avó-Terra”, mas que alguns antropologistas preferiram traduzir como “Mãe-Terra”.

Outra palavra suméria que usamos até hoje e que sofreu pouca alteração ao longo dos milênios é “mãe” ou “mamãe”, que deriva das palavras Mamma, Mammi ou Mami, as quais, por sua vez, são outros nomes utilizados para se referir à ‘deusa-mãe’ Ninhursag (“Senhora da Montanha”), associada à fertilidade.

Em seu livro Encontros Divinos, Sitchin faz uma descrição de inúmeros relatos registrando o encontro entre homens e ‘deuses’. Ele começa traçando um perfil de como eram esses encontros e como eles interferiam no cotidiano das pessoas, sempre pendendo para a teoria extraterrestre. Porém, Sitchin começa a enveredar por outros caminhos no último capítulo e decide traçar um paralelo entre todos os deuses sumérios e o Deus dos hebreus, no Velho Testamento. O propósito é identificar qual dos deuses sumérios seria o Deus descrito na Bíblia, então ele compara um a um buscando similaridades na personalidade, nos diálogos, nos feitos e nos milagres.

E só então um novo elemento nos é apresentado. Os poderosos ‘deuses’ da Suméria, quando viam seus planos frustrados ou quando enfrentavam algum imprevisto, reconheciam suas limitações e atribuíam esses acontecimentos a quem chamavam de “O Criador de Todas as Coisas” (cujo poder controlava tanto a Sorte quanto o Destino). Ou seja, os ‘deuses’ possuíam um Deus. Não encontrando paralelo no panteão sumério, Sitchin admite que o Deus bíblico é, de fato, o Criador de Todas as Coisas.

Essa informação é esclarecedora para os primeiros capítulos do Velho Testamento, ao visualizarmos a dificuldade e resistência que Abraão, Moisés e os outros patriarcas enfrentaram ao tentar difundir a Palavra de um Deus invisível para povos acostumados a ‘deuses’ que viviam entre eles, tinham esposas e filhos – algumas daquelas pessoas podiam até mesmo ser descendentes desses ‘deuses’.

Eu poderia ficar neste assunto eternamente, mas o texto já está grande demais. Acho que me empolguei e, mesmo assim, apenas pincelei alguns tópicos que descobri sobre os sumérios. Se você, como eu, fica fascinado com história antiga, então este post deve ter plantado a vontade de saber mais. Se esse é o seu caso, basta uma pesquisa rápida na web para encontrar milhares de páginas sobre o tema. Separe o joio do trigo e boa leitura.

Conhecendo o Windows 7

Posted by Emilio Calil On julho - 15 - 2010 COMENTAR

Estou devendo este post há algum tempo. A vida anda tão corrida nesses meses que não dá tempo de se autopromover.

Não é novidade dizer que sou apaixonado por tecnologia. E escrever sobre o assunto chega a ser mais um hobby do que trabalho propriamente dito. Sendo assim, fui convidado ano passado a escrever um livro sobre o Windows 7. Desnecessário dizer que aceitei imediatamente e mergulhei de cabeça na elaboração dos capítulos.

E o resultado você pode conferir aqui. O livro ensina a utilização do mais recente sistema operacional da Microsoft e contém dicas e informações tanto básicas quanto avançadas. A ideia era criar um conteúdo que pudesse auxiliar os usuários a extrair o máximo que o Windows 7 oferece. Eu, como inquieto fuçador, gosto de compartilhar as descobertas com os outros.

E quero agradecer aos amigos da Universo Editorial por mais uma oportunidade de contribuir com a editora – pra quem não sabe, este é o segundo livro que publico. O primeiro foi baseado no Windows Vista.

Feita a propaganda, espero que os leitores comprem o livro aos milhões e garantam que eu escreva sobre o Windows 8, quando for lançado.

A grande Hatshepsut

Posted by Emilio Calil On março - 3 - 2009 2 COMENTARIOS

O amigo Emerson Freire finalmente retoma os textos em seu blog e, dando continuidade à idéia de escrever um livro sobre as mulheres mais influentes da história, publica um ótimo artigo sobre aquela que se acredita ser a primeira mulher faraó do Egito, a rainha Hatshepsut.

O texto é muito bom e remonta à glória e opulência da fascinante época dos faraós, mostrando a importância de Hatshepsut para o crescimento político e comercial do Egito. Leitura mais do que recomendada. Para ler o texto do Emerson, basta clicar aqui.

Entre livros, filmes e games

Posted by Emilio Calil On janeiro - 27 - 2009 3 COMENTARIOS

Ando desesperadamente atrás de um bom livro para ler. Não consigo ficar muito tempo afastado de livros. Ano passado minha melhor leitura foi Infiel, de Ayan Hisri Ali, que já comentei aqui. Fora isso, li alguns contos de Stephen King para matar o tempo, mas ficção e fantasia já perderam a graça – é como comer doce quando se está com fome: engana, mas não satisfaz.

Em 2009 pretendo aumentar minha quantidade de leitura mensal. Não dá, por exemplo, pra seguir o mesmo ritmo do Cristaldo de oito livros por mês, até porque ele tem mais tempo livre do que eu. Mas pelo menos dois por mês é algo que preciso me impor. Difícil é encontrar algo que preste nas livrarias brasileiras, especialmente entre os best-sellers. Estou esperando a nova publicação de Atlas Shrugged, de Ayn Rand, mas se for lançada no mesmo preço de A Nascente, fica complicado. O mesmo para o Quixote, de Cervantes. Mas não era bem sobre livros que pretendia escrever. Disse que andava procurando um bom livro, mas, enquanto não encontro, tenho me divertido com outras mídias: filmes e videogames. Assim, deixo aqui duas sugestões que me cativaram nos últimos tempos.

Filme: Slumdog Millionaire
Vai estrear no Brasil em 6 de março sob o título de Quem Quer Ser Um Milionário? Dirigido pelo inglês Danny Boyle, o drama narra a história de três crianças  – Jamal, Salim e Latika – que vivem em uma favela da Índia e, de uma hora para outra, se vêem obrigados a lutar pela sobrevivência, crescendo e  trilhando caminhos nada amigáveis. A história nada tem de mais, mas a forma como é contada, com reviravoltas e flashbacks, prende a atenção. E, confesso, eu não esperava aquele final. Recomendo como ‘desintoxicação’ de Hollywood, que dá sinais de completa falta de imaginação. Slumdog Millionaire está sendo bem cotado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. É bom, mas não chega a tanto. E o Oscar nunca foi lá referência confiável, também. Tenho lido por aí que o início do filme de Boyle lembra bastante o brasileiro Cidade de Deus. Não vi Cidade de Deus (nem tenho vontade de ver), portando não posso opinar.

Jogo: Prince of Persia
Sou fã da série Prince of Persia desde a época dos computadores 386 com monitores monocromáticos. Um jogo que mescla aventura e raciocínio sempre é bem-vindo. Para mim, a melhor versão do jogo original foi a lançada para Super Nintendo, com gráficos e sons bem elaborados para a época. Depois, a série andou sumida (arriscaram uma versão 3D muito sem graça) e retornou com a ótima trilogia Sands of Time, Warrior Within e Two Thrones. E agora, surgindo para a nova geração de consoles, Prince of Persia retorna ainda mais fantástico. A nova versão do jogo, que não possui nenhum subtítulo, parece uma pintura em movimento. Os controles são bastante fáceis de aprender e a história é cativante. O tal ‘príncipe’ é um andarilho do deserto que acidentalmente junta-se à princesa Elika numa corrida contra o tempo para enfrentar o deus das trevas Ahriman, que foi libertado após milênios preso pelo deus da luz Ormazd. Mas a verdadeira graça do jogo não está nos desafios, nos gráficos, nem na história em si. O melhor do novo Prince of Persia são os diálogos constantes entre os protagonistas. Ele, totalmente cético, agnóstico e sarcástico, passa o tempo todo provocando Elika, que é devota de Ormazd. Os diálogos são tão naturais que às vezes você esquece que é só um jogo. Destaque para observações do príncipe à Elika, como “Muito obrigado por me colocar no meio da luta entre dois deuses os quais eu nem mesmo acredito”. Ou quando Elika pergunta se ele não vive por nenhum ideal e ele responde: “Lutar por um ideal é viver de acordo com as idéias de outra pessoa. Eu prefiro viver de acordo com minhas próprias idéias”. E – meu diálogo favorito – quando o príncipe pergunta à Elika por que lutar por um deus que não se mostra, e ela responde que isso lhes garantirá ótimas e agradáveis recompensas na vida, ao que ele retruca: “Se eu me cobrir de chocolate e entrar num harém, terei ótimas e agradáveis surpresas, também”. Enfim, um jogo imperdível. Há versões para PlayStation 3, Xbox 360 e PC.

Livros com até 70% de desconto

Posted by Emilio Calil On junho - 18 - 2008 COMENTAR

A livraria Saraiva está com uma espécie de ‘saldão de livros’ em seu site, oferecendo bom desconto em várias publicações interessantes. Claro, você precisa garimpar um pouco, pois tem bastante porcaria, como os famigerados livros de auto-ajuda. Mas obras como Infiel, O Mundo de Sofia e A Revolução dos Bichos, entre outras, podem ser adquiridas por menos de R$ 30. Vale a pena.

Clique aqui para ver os livros em promoção.

Bebendo em outras fontes

Posted by Emilio Calil On junho - 9 - 2008 2 COMENTARIOS

Gosta de histórias em quadrinhos? Então você provavelmente conhece dois grandes ícones desse universo: Frank Miller e Alan Moore. Ambos produziram obras memoráveis. Se falarmos em Batman, Miller nos brindou com O Cavaleiro das Trevas e Moore com A Piada Mortal. E há muito mais: Watchmen, V de Vingança, 300, Ronin, Demolidor, Elektra, Monstro do Pântano. A lista é enorme.

Cada um desses autores tem um estilo único de contar histórias. Miller prefere ação, enquadramentos dramáticos e roteiros que se desenvolvem rápido. Já Moore é mais introspectivo, aprofunda-se na trama e na personalidade de cada integrante da história, preferindo diálogos tensos a cenas de ação. Essa diferença não se dá sem motivo. As fontes de inspiração desses autores são nitidamente distintas.

Frank Miller sempre usou o cinema como referência – compare o primeiro filme do Robocop aos quadrinhos do Cavaleiro das Trevas e notará boas semelhanças, como a trama sendo resumida na forma de noticiários de TV, entre outras. Não por acaso, Miller acabou sendo convidado para escrever o roteiro de Robocop 2 (que não foi lá essas coisas). Se Frank Miller é mais ‘hollywoodiano’, podemos dizer que Alan Moore é mais ‘shakespeariano’. Suas inspirações vêm da literatura, de romances clássicos e obras de ficção e fantasia como as de Edgar Alan Poe, entre outros. E note que o cinema busca inspiração na literatura, que por sua vez inspirou-se nas tradições orais e musicais dos povos da antiguidade sobre relatos históricos, religiosos e mitológicos.

São essas referências externas que fizeram as obras desses dois autores se destacarem das demais e serem cultuadas até hoje. Claro que são talentosos, mas muitos outros na indústria dos quadrinhos também são. Eles se diferenciaram porque foram buscar inspiração em outros lugares para seus trabalhos, em vez de apenas olhar ao redor e fazer o que estava ao alcance dos olhos. Em marketing e publicidade, isso é chamado de ‘pensar fora da caixa‘ (do inglês out-of-box), ou seja, fugir do convencional, ir na contramão de idéias pré-estabelecidas, fazer mais do que se espera para alcançar o inusitado.

Se você trabalha com cinema, os filmes são sua única fonte de referência? Se trabalha com quadrinhos, só busca notícias sobre isso? Se você é designer, olha apenas o trabalho de outros designers ou inspira-se em uma música? Se você é escritor, que outras referências tem além de livros? Por que um comentarista esportivo não poderia, sei lá, citar Schubert?

Seja você patrão ou empregado, advogado ou faxineiro, o que o torna diferente dos outros? O que você faz para se destacar do convencional? De onde vem a inspiração que o torna único?

Você pensa fora da caixa?

Sobre respeito, tolerância e laicismo

Posted by Emilio Calil On abril - 10 - 2008 6 COMENTARIOS

Um amigo me pergunta por que não falo de religião no blog: “Você seguiu várias doutrinas, poderia falar com conhecimento sobre elas”. Poderia, mas não falo. Sim, peregrinei por vários caminhos, mas encontrei o que buscava e sosseguei. Não preciso discutir esta ou aquela religião. Eu seria um imbecil se saísse criticando outras doutrinas e enaltecendo a minha. Nada disso. Defendo justamente a liberdade de se seguir o caminho que achar melhor. Discutir o certo e errado dentro da própria fé é uma coisa, mas invadir filosofias alheias com o dedo em riste é inaceitável.

Cada pessoa tem a liberdade de crer no que quiser, desde que não tente impor sua opinião a outrem. Tenho um colega, por exemplo, que não se conforma com quem crê na Bíblia, mas discursa sem pudor sobre a vida dos habitantes da Atlântida. Defendo o direito a ter essa opinião, mas não o de atacar outras crenças para defender a sua. Se está convicto da sua fé, por que atacar as outras? Isso não quer dizer que não se deva questionar para entender uma doutrina. Acreditar cegamente sem perguntar os ‘porquês’ leva ao fanatismo.

“Entendo”, rebateu meu amigo, “mas aí você não poderia falar de política, pois cada um escolhe o lado que quiser”. De fato, até minha noiva reclama quando falo de política aqui. Mas há uma diferença.

Na religião, debate-se metafísica: Pode um cego enxergar pela fé? Os monges tibetanos levitam? Existe reencarnação? Isso só cria mais divergência, pois há religiões antagônicas. Além disso, não considero a internet bom lugar para o assunto. Prefiro conversa ao vivo, se necessário.

Na política é diferente, pois fica-se no mundo físico – diria que é mais ciência ‘exata’ do que ‘humana’. E ainda que eu critique a esquerda e o socialismo, não desejo bani-los em prol da direita e do capitalismo. Ao contrário, é bom ter um contrapeso para que um dos lados não se exceda. Já a esquerda quer silenciar qualquer idéia contrária, pois se presume perfeita. Bobagem, nenhum esquerdista ou direitista está livre de erros, por mais culto que seja.

Admirar pensadores ditos ‘de direita’ não me implica concordar com tudo o que dizem. Por exemplo, gosto dos textos de Olavo de Carvalho, mas o acho muito alarmista. O jornalista Reinaldo Azevedo é ótimo, mas dá seus escorregões. O escritor Janer Cristaldo domina a escrita como poucos, mas exagera em certos comentários. Aliás, Cristaldo é ateu e faz pesadas críticas a religiões, mas o fato de não concordar com ele não me impede de admirá-lo como escritor. No blog dele, ele escreve o que quer.

Também não aprecio a mistura de política e religião – principalmente políticos que usam religião para se promover. Sou favorável a um Estado laico que garanta liberdade religiosa. Podemos respeitar as leis do país e a religião sem conflitos. Por exemplo, se o aborto for legalizado, as religiões contrárias à idéia continuam aconselhando seus fiéis a não praticá-lo. Se a religião condena o homossexualismo, ela deve exortar que seus membros não pratiquem tais atos, sem jamais pregar contra os gays no mundo. Se Estado e Igreja divergem em um assunto, que sigam seu caminho sem interferir um no outro.

Por defender a liberdade é que me oponho à ideologia socialista, que não tolera críticas externas e nem faz autocrítica. Debatessem as esquerdas racionalmente, muito se aproveitaria. Mas preferem argumentos ad hominem, feito crianças birrentas. Além disso, o comunismo substitui Deus por ditadores e guerrilheiros. Transformam-se genocidas em santos. Foi assim com Lênin, Mao, Fidel, Che e outros. Escolher o caminho agnóstico por decisão própria é uma coisa, mas ser obrigado a renunciar sua fé é outra. Por mais íntegro, culto e respeitável que seja (e não é o caso de nenhum desses citados), homem algum é digno de louvor. Podemos admirá-los, seguir seus conselhos e imitá-los, mas lembrando que eles erram e devemos discordar. Quando ouço alguém defender o socialismo e se dizer cristão, espírita ou budista, não deixo de rir. O ingênuo defende a ideologia que destrói aquilo em que ele acredita.

Se me falam em tolerância com as diferenças, entendo que se deve aceitar passivamente qualquer provocação ou abuso dos tais ‘diferentes’. Não concordo. Se não tolero algo, não tenho que aceitá-lo. Não gosto de samba e pagode, não freqüento lugares que tocam samba e pagode. Quem gosta, divirta-se, mas não me chame. O mesmo vale para preferências religiosas, políticas e outras. Especialmente as que optam pela violência. Nesse caso, têm meu total repúdio – seja um governo ou uma religião.

Quando conheci Janer Cristaldo pessoalmente, ele jamais tentou me impor sua visão ateísta, mesmo conhecendo minha religião. Ambos sabíamos do ponto de vista do outro, não havia por que criar discussão. Mais do que tolerância, preferimos o respeito. Termino citando Voltaire:

Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las.

Infiel

Posted by Emilio Calil On março - 30 - 2008 6 COMENTARIOS

Finalmente terminei de ler Infiel, autobiografia de Ayaan Hirsi Ali. Se eu tivesse que recomendar aos leitores do blog apenas um livro neste ano, sem dúvida seria esse.

Nascida na Somália em 1969, Ayaan sofreu as agruras de governos socialistas, guerras civis e a pressão do islamismo – que ora era seu refúgio, ora seu martírio. Da Somália foi para a Arábia Saudita, depois Etiópia e Quênia. Questionadora, devorava os livros a que tinha acesso e imaginava uma sociedade onde as mulheres escolhiam o rumo das suas vidas, em vez de viverem submissas.

Em 1992, Ayaan ia rumo ao Canadá para viver um casamento arranjado pelo pai. Com o vôo fazendo escala na Alemanha, num ímpeto de coragem e ousadia, ela resolveu escapar e pediu asilo político na Holanda, onde se graduou, conquistou cidadania holandesa e elegeu-se deputada no parlamento, defendendo a liberdade de expressão e os direitos das mulheres no islã. Para uma mulher, negra, muçulmana e que desconhecia o modo de vida europeu, sem dúvida foi um feito incrível.

O livro é sensacional. Não tem a correria de um thriller de ficção, mas prende a atenção como tal. Há momentos que chocam, como a descrição das atrocidades cometidas contra as mulheres e a narrativa de refugiados de guerra, além dos eventos que culminaram no assassinato de seu amigo, Theo van Gogh. Um resumo desses acontecimentos você pode ver aqui.

A visão de um país que não permite questionamento de suas leis e condena liberdade e democracia é perturbadora. A disseminação do ódio mostra como pessoas podem ser manipuladas a enxergar inimigos que não existem. Por exemplo, o ódio aos judeus. Acabou a luz na rua? Culpa dos judeus. Tropeçou numa pedra? Culpa dos judeus. Até inimigos internos, como Saddan Hussein, eram tidos como judeus. Não há de se estranhar, portanto, esse conflito milenar.

Mas nem tudo é sofrimento. O livro descreve uma Somália diferente da de hoje, onde um governo unificado construía um futuro de esperanças. O pai de Ayaan, muçulmano fiel, não era radical e gostava de dialogar. Figura importantíssima no livro, ele estudou em Roma e em Nova Iorque nos anos 60 e retornou deslumbrado com os americanos: “Se eles conseguiram chegar aonde chegaram em apenas duzentos anos, nós, somalis, podemos ser a América da África”. Mas a tomada do poder por um governo comunista minou as esperanças e lançou o país na miséria.

O choque cultural de Ayaan ao viver na Holanda e descobrir que era dona do seu nariz é divertido. O que para nós, ocidentais, é comum, para ela era um escândalo. Entretanto, o excesso de liberdade da Holanda e a falta de limites para exilados e estrangeiros também pode ter sido o princípio da sua ruína, visto como o país está hoje sempre às voltas com atos terroristas. Em nome da liberdade de expressão, não se freou a tempo um ‘governo paralelo’ que prega justamente o fim de toda e qualquer liberdade. Veio-me à mente o Brasil e o MST.

Acredito que Ayaan tenha absorvido rápido demais a nova cultura e quis compensar o tempo perdido. Notam-se as inúmeras referências a escritores, filósofos e seu envolvimento com a política foi a maneira de extravasar o que sentia. Na ânsia de chocar, de chamar atenção para um problema, creio que se excedeu. É uma mulher brilhante, intelectual e determinada. Mas em alguns momentos parece ser ainda uma somali perdida em um mundo estrangeiro.

relatei no outro blog que gosto de fazer minhas leituras em um café do meu bairro. Em uma manhã de sábado, enquanto lia uma passagem triste de Infiel, olhei pela janela do café e vi duas meninas – uma loira e a outra negra – com roupas de ginástica e mochilas nas costas, indo para a academia. Sorriam e brincavam despreocupadas na manhã ensolarada. Me peguei sorrindo também. Alheias ao racismo, intolerância e terror que eu estava lendo, elas não faziam idéia de como suas vidas eram boas.

O professor e as leis

Posted by Emilio Calil On fevereiro - 29 - 2008 COMENTAR

Escreve-me o professor Jackson Galvão, comentando meu texto sobre a lei que proíbe a pessoa de fumar dentro do próprio veículo:

Olá.

Compreedo a indignação que se faz frente a liberdade das pessoas de decidirem o melhor para si. E acredito que nem deve ser diferente. Devemos sim entender com clareza os limites que a sociedade tem sobre a individualidade, bem como esta tem sobre a sociedade. E é neste preocupação que a lei retringe o uso do fumo ao estar no volante. O cidadão não é proibido de fazer uso de fumo em seu veículo, desde que não esteja ao volante, colocando em risco, por algum eventual incidente com seu objeto de consumo, a sua vida e dos demais que pela vida transitam, tirando desta forma o direito que as outras pessoas tem de vive e decidir o que é melhor para si.

Os acidentes são inúmeros e hoje o Brasil mata mais pessoas em acidentes de transito do que a guerra do Iraque. São diversos impecílhos como estradas em más condições, pouco ou nenhuma sinalização, veículos em más condições e principalmente a combinação da ingestão alcoólica com o volante que correspodem a cerca de 60% dos acidentes de transito. Ou seja, o que vemos é pura irresponsabilidade. Realmente, o que precisamos não são de leis. O que precisamos é de EDUCAÇÃO; e o que na realidade temos são escolas superlotadas, altos salários para políticos e professores mal remunerados (e digo isto por eu, que às vezes fico 5 mêses sem receber) e de brinde (óbvio) um povo que não presa por valores simples e sensatos como o respeito a VIDA, . Se a tivéssemos, não precisaríamos de nenhuma lei, pois saberíamos nosso limites.

Abraços!

Prof. Jackson

Meu caro professor, entendo tua colocação, mas permita-me discordar. Mostra-me, então, pesquisa que indique ser o cigarro grande causador de acidentes no trânsito. Conheces alguém que bateu o carro por fumar ao volante? E, como indaguei anteriormente, por que só o cigarro? Uma pessoa não pode se distrair ao volante chupando pirulito, mascando chiclete, conversando ou até trocando a estação do rádio? Proibamos tudo isso, também! Essa lei por si só não se sustenta, não se justifica. Uma lei que tenta prever casos hipotéticos não é lei, é cerceamento de liberdade. O jornalista Reinaldo Azevedo fez boa analogia sobre assunto parecido dizendo que, para prevenir o câncer de mama, melhor amputar os seios de todas as mulheres do mundo e pronto, a doença se extingue.

Já teu segundo parágrafo é mais coerente, professor. Concordo que péssimas estradas, má sinalização e veículos em condições duvidosas – fora o álcool – são fortes causadores de acidentes. Mas não achas engraçado que todos esses itens são de responsabilidade do governo? Ora, se o governo não oferece boas estradas, não mantém sinalizações visíveis, não inspeciona os carros nem verifica se o motorista está embriagado, como pode esse mesmo governo exigir que não se fume dentro do carro para evitar acidentes? Fizesse o governo a parte que lhe cabe, não contaríamos mais mortos do que os países em guerra.

E concordo novamente quando diz que não precisamos de mais leis. De fato, as temos até demais. Um povo cônscio de suas responsabilidades não precisaria de tantas leis para exercer direitos e deveres. Bastaria, como disseste, professor, a educação e o respeito mútuo. Mas “nenhuma lei” não é exagero? Nem eu, que sou contra a onipresença do governo em nossas vidas, chegaria a ponto tão anárquico. Mesmo em países civilizados existem leis para manter a ordem. A diferença é que lá essas leis funcionam e são respeitadas.

Por fim, também compreendo tua frustração ao ver políticos corruptos milionários enquanto temos professores jogados ao relento da educação do país. Mas essa é a idéia, quanto menos cultura, menos conhecimento e menos educação, os governantes que aí estão têm voto garantido. O mínimo de discernimento político faria a população expulsá-los a pontapés. Cinco meses sem receber salário? No mínimo, frustrante. Já passei por experiência semelhante e sei o que é isso. Solidarizo-me.

Mas veja bem, professor. Em tuas mãos está parte do poder para reverter esse quadro. A ti foi confiado o futuro do país. Tens a capacidade de ajudar na formação de jovens mentes que serão eleitores – se é que já não são. Teus dissabores devem servir de exemplo para fazê-los buscar cada vez mais conhecimento, apesar de todas as dificuldades. Em ti, professor, está o embrião de novos políticos, artistas, jornalistas, médicos ou advogados. Por isso, professor, peço-te humildemente uma coisa. Não sei qual matéria leciona, nem para qual idade de alunos, mas “impecílhos” e “mêses“, entre outras, não são palavras que se espera de um educador. Rogo que não seja isso que ensina a teus alunos, do contrário, o problema com a educação é mais sério do que imagina.

De bula de remédio à Barsa

Posted by Emilio Calil On fevereiro - 26 - 2008 1 COMENTARIO

Um amigo me perguntou certa vez: “Você escreve bem, o que eu preciso fazer para conseguir escrever como você”? Bem, não há resposta correta para essa pergunta, pois saliento que estou longe de escrever bem. Tenho, de fato, procurado melhorar com o tempo e o blog é ótimo exercício, mas relendo meus textos percebo inconsistências e contradições, às vezes até em crônicas seguidas. Falta muito para manter uma linha de raciocínio coesa e um estilo próprio, constante. Dou muitas derrapadas.

Ainda dentro da pergunta desse amigo, eu diria que se você prestou atenção nas aulas de português na escola e fazia suas redações (aquelas com o tema “Minhas Férias”), no mínimo aprendeu o básico para se expressar corretamente. O resto é evolução com a prática. E se não praticar, não evolui. Além disso, há o fato que considero o mais importante para se escrever bem: ler.

Ler é fundamental. Ler muito e sobre todos os assuntos possíveis. Afinal, se você não lê, como poderá escrever? Fica limitado a um vocabulário de meia-dúzia de palavras e, a bem da verdade, torna-se praticamente um semi-analfabeto. Há quem considere analfabeta a pessoa que não domina ao menos três idiomas. Não deixam de ter sua razão, mas para o momento fiquemos no português. A leitura liberta dos grilhões da barbárie e refina o intelecto, despojando-nos de idéias que só encontram existência em mentes tacanhas. Não que a leitura nos faz mudar de opinião a todo instante (como a ridícula “metamorfose ambulante” do Seixas), pelo contrário, ela pode até reforçar uma opinião já concebida. E mesmo que mude, fará isso com embasamento, comparando idéias e não apenas com ‘achismos’.

Desde pequeno sempre li de tudo. Gostava de ler quadrinhos, almanaques, enciclopédias e alguns livros. Lia por ler e aprendia alguma coisa. Aliada a isso, uma sede por conhecimentos espirituais. Enveredei por leituras de religiões e filosofias. Conheci Sócrates e Platão, flertei com Blavatsky, estudei geometria sagrada, cabala e me diverti com Lobsang Rampa. Não eram leituras que um garoto da minha idade se interessaria, mas lá estava eu devorando-as. Cresci e joguei tudo isso pra trás. Dessa fase ficou apenas um livro que lista entre meus favoritos, de tanto que li e reli: Deuses e Astronautas no Antigo Oriente, de W. Raymond Drake. Ele embarca na sandice sobre deuses da antiguidade serem extraterrestres. A afirmação usa figuras duvidosas, como Adamski, para creditar a tese. Um festival de besteiras sem igual, mas escrito de forma tão apaixonada que recomendo a quem deseja criar roteiros de ficção. Abaixo, a introdução:

Naqueles tempos maravilhosos em que a Terra era jovem e a natureza resplendia de novidade, seres celestiais desceram das estrelas para ensinar as artes da civilização ao homem simples, criando a Idade do Ouro cantada por todos os poetas da antiguidade. Durante séculos a humanidade gozou duma cultura brilhante e prosperou sob o governo benigno dos reis espaciais, que possuíam uma ciência psíquica afinada com as forças do universo e os poderes existentes dentro da alma humana. Esses seres adoravam o Sol, o divino Andrógino, símbolo do Criador; faziam ensinamentos sobre a vida depois da morte, a reencarnação, a ascensão através da existência em diferentes dimensões até a união com Deus. Em ocasiões especiais desciam à Terra e compartilhavam seus arcanos secretos e sua tecnologia com os iniciados eleitos.

Prosseguindo as leituras, fiquei bom tempo preso na ficção, sendo Tolkien e Asimov meus favoritos, seguidos por Stephen King. Li O Senhor dos Anéis umas oito vezes antes que sonhassem em fazer o filme. Depois que chegou às telas, perdi o interesse. A popularização de certas obras literárias rouba-lhes o encanto. Mesmo assim, fossem os ‘hobbits’ introduzidos nas escolas brasileiras, o interesse da molecada por livros seria outro e os poupariam de Jorge Amado. Nesse ponto Harry Potter tem lá seus méritos, apesar de tudo.

Acontece que para efeito de aprimoramento intelectual a ficção tem seus limites. Ela diverte, entretém e até questiona, mas não vai muito longe. Chega um momento em que parece estagnar e você se sente impelido a beber em outras fontes. Já não basta apenas ler, mas ler algo a mais, que acrescente reais conhecimentos. Nada contra a ficção, ainda leio um ou outro livro do gênero, sem falar que Verne, Dickens ou Cervantes são atemporais. Apenas percebi que ficaria preso num círculo se não buscasse novos autores, novos textos e novas idéias. E nessa peregrinação literária é mais do que óbvio que a pessoa adquire mais cultura, enriquece o vocabulário e, se gostar de escrever, aperfeiçoa o estilo. Nem é necessário publicar um livro para mostrar erudição, mas num simples bate-papo ou mesmo em blogs nota-se a diferença.

Ouvi certa vez que se você quer crescer na vida, deve travar contato com pessoas de nível sócio-cultural igual ou superior ao seu. Pode parecer afirmação preconceituosa, mas tem fundamento. Se quiser aprender, busca quem sabe mais do que você. E para falar de igual para igual com essa pessoa, deve ampliar seus conhecimentos. Uma coisa puxa a outra.

Hoje procuro ler sobre os mais variados assuntos. Estou na metade de Infiel, autobiografia de Ayan Hirsi Ali, e já tenho em mira mais dois ou três livros que pretendo comprar, entre eles Cartas Vienenses, compilação dos escritos de Mozart. Fora a leitura no papel, recorro diariamente à web. Gosto de perambular pelos sites dos mais famosos jornais de outros países como o Corriere della Sera, da Itália, o El Pais, da Espanha, e o Le Monde, da França. Não que eu fale espanhol, italiano ou francês, mas alguma coisa dá pra entender. E sempre é bom ler textos em língua estrangeira. Esses três sites, mais a Folha, o Estadão e alguns blogs são parada obrigatória de manhã antes de começar a trabalhar.

Assim, retornando ao primeiro parágrafo e à pergunta desse meu amigo, a única dica que posso oferecer é a de ler cada vez mais, mesmo. De crônicas políticas a poesias; de bula de remédio aos compêndios da Barsa; de histórias em quadrinhos a revistas científicas – tudo é válido. Um povo que não tem apreço pela leitura não pode ser chamado de civilizado e, conseqüentemente, seu país não merece o titulo de nação.

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