03/09/2010

Emilio Calil :: Blog

Comentando o cotidiano

Sobre bananas e lulas

Posted by Emilio Calil On janeiro - 31 - 2008 4 COMENTARIOS

Não há lugar melhor para se cometer gafes do que em coletivas de imprensa. As empresas que vão apresentar novo produto ao mercado fecham um restaurante para o evento e realizam demonstrações para um bando de jornalistas famintos, cujo único interesse é comer de graça em lugares que jamais sonhariam freqüentar.

À época em que eu trabalhava em editoria de informática, recebia sempre convite para tais coletivas. Nunca tive maiores problemas em falar bem ou mal dos produtos – não me vendia por comida. Entretanto, pequenas catástrofes individuais eram minha especialidade. Em três ocasiões distintas, três gafes distintas. Lembro-as:

Em 2002, a convite da Macromedia (hoje incorporada à Adobe), estive no lançamento do Flash MX, no restaurante Capim Santo (capimsanto.com.br). Belo lugar, com decoração tropical e um pequeno lago na entrada, transposto por uma ponte. Na área reservada aos jornalistas, assistimos à demonstração do software e, ao término, o almoço. Olhando o cardápio, chamou-me atenção o medalhão ao molho madeira. Como adoro esse prato, pedi. Conversa vai, conversa vem, chega o medalhão com visual magnífico e sabor não menos impressionante. Tenro, molho bem acentuado e – veja só – acompanhava purê de batata. Também adoro purê. Sem hesitar, cortei um pedaço do medalhão, mergulhei-o no purê e comi. Levei algum tempo para decifrar o sabor do purê com a carne – estava adocicado. Provei só a carne: perfeita. Provei só o purê e vi que não era purê, mas banana amassada com canela. Fascinante, estava almoçando e comendo a sobremesa ao mesmo tempo. No final, o sabor do doce com o salgado não ficou tão estranho assim. Ainda voltarei ao Capim Santo para experimentar o prato novamente. Mas não consegui disfarçar o susto ao descobrir os ingredientes pela primeira vez.

Outra coletiva em que não me dei bem foi num lançamento de impressoras da HP no Blue Tree Towers (bluetree.com.br), acredito que em 2002, também. O evento foi realizado no salão de convenções do hotel. Ao fim da apresentação, o bufê ficava do lado de fora do salão, então tínhamos que ir fazer nossos pratos e retornar à mesa. Peguei uma salada aqui e outra ali, alguns pãezinhos e corri para os pratos quentes. Surpresa! Havia panquecas. Outro de meus pratos favoritos. Evitei qualquer complemento e tratei de jogar logo duas panquecas no prato. Retornei ao meu lugar e minha companheira de mesa, que cuidava do marketing da editora, perguntou se eu gostava de lula. “Detesto! Causa-me asco tanto o molusco quanto o político” – disparei, sagaz. “Mas então por que pegastes logo dois enrolados de lula?”, confrontou-me ela. Sem acreditar no que acabara de ouvir, cortei um pedaço da panqueca e lá estavam pequenos tentáculos escuros, cozidos. No mesmo instante sentou-se à mesa, para almoçar conosco, a diretora de marketing da América Latina da HP. Sem saída, tive que engolir a lula – que dominava mais da metade do prato. Para facilitar, mantive um contato fixo nos olhos da diretora da HP, prestando bastante atenção no que ela dizia e, em momento algum, baixei a cabeça para olhar o prato. Não foi fácil, mas sobrevivi.

E a terceira gafe aconteceu também com a Macromedia, no fino e elegante restaurante Ecco (eccorestaurante.com.br), na apresentação do ColdFusion. Eu havia prometido levar à Patrícia, a assessora de imprensa da Macromedia, exemplares das nossas revistas. Atrasados para o evento, um companheiro de redação e eu voamos para o carro com as revistas e disparamos para o restaurante. Chegando lá, a própria Patrícia veio nos recepcionar na entrada do restaurante. Avisei-a das revistas e fomos com ela buscá-las no carro. Mas onde estavam? Após revirar tudo, lembrei. Na pressa, deixara as revistas em cima do carro para pegar a chave no bolso. Conclusão, deixei um rastro de revistas pelo caminho. O almoço transcorreu sem maiores problemas, finalizando com um petit gateau inesquecível. Na volta, ao subirmos o viaduto 9 de Julho, um estrondo atrás. Olhei pelo retrovisor e vi meu estepe, saltitando entre as faixas (o estepe ficava embaixo do carro e a trava havia se soltado). Descemos o viaduto, fizemos a volta e tentamos capturar o estepe fugitivo. Sem sucesso. Ele desaparecera. Perdi as revistas na ida e o estepe na volta. Pelo menos almocei bem.

Há ainda uma gafe meio recente, quando conheci pessoalmente o escritor Janer Cristaldo (cristaldo.blogspot.com), num bar em Higienópolis. Entre chopes e batidas de maracujá, ele pergunta: “Topas uns frutos do mar?”. Eu detesto frutos do mar, mas estava aéreo naquele momento, porque nem pensei direito e respondi “sim, sem problema”. Chega então uma bandeja de mariscos, pareciam pescados na hora. Olhei o monte de ostras na minha frente e pensei: “E agora”? Cristaldo apanhou uma ostra, espremeu limão e engoliu rapidamente. Tentei fazer o mesmo, peguei a ostra, espremi quase todos os limões da mesa e levei à boca. Sem chance. Deixei a ostra de lado e voltei ao chope. Minutos depois Cristaldo pergunta: “Falta-lhe coragem intelectual”? Com indagação no rosto, perguntei: “Para quê?”. “Para enfrentares esses mariscos”. Fazer o quê? Fui desmascarado. Rindo, ele disse: “Deixe que eu me encarrego deles, então”. Ainda hoje, quando lhe envio qualquer e-mail, ele responde: “Quando aparecerás de novo para umas ostrinhas?”

Internet incomoda políticos

Posted by Emilio Calil On janeiro - 24 - 2008 3 COMENTARIOS

De acordo com o site ComputerWorld, o senador Expedito Júnior (PR-RO) diz que têm sido criados sites de “pseudo-jornalistas” com o objetivo de caluniar, difamar ou injuriar autoridades públicas e personalidades. Por isso, os assim chamados crimes contra a honra poderão ter pena maior se praticados na internet, como pode ser lido aqui.

Ou seja, se você possui um blog, cuidado com o que escreve, pois a censura à liberdade de expressão está cada vez mais forte. Repare nos últimos parágrafos da notícia:

“As repercussões sobre a honra, subjetiva e objetiva, são inquestionáveis, na medida em que milhares de pessoas podem acessar as informações caluniosas ou difamantes e retransmiti-las,em uma cadeia sem fim”, diz Expedito Júnior.

O projeto propõe também alterações no Código de Processo Penal para estabelecer que a autoridade policial deverá, assim que for comunicada a respeito de um crime dessa natureza, acessar o site indicado e imprimir o material ofensivo, que deverá servir de prova na ação penal.

“Dessa forma, de nada adiantará ao agente retirar o site do ar para dificultar a produção de prova pelo ofendido, nem terá validade a alegação de que o material foi forjado”, explica o senador.

O grande incômodo aqui é o fato de a internet atingir um número grande de pessoas quase instantaneamente. Um político não pode tentar ganhar a vida fazendo falcatruas que lá vem meia-dúzia de blogueiros falarem mal dele. Deve ser muito irritante, mesmo. Deveriam proibir de vez a internet no país. O nobre senador já se antecipou e diz que as provas impressas pela polícia terão valor mesmo que a pessoa tire o site do ar. Ainda que essas provas possam, sim, serem forjadas. Sendo assim, é muito mais seguro, então, ofender uma autoriade cara à cara do que pela internet. E se a pessoa resolver distribuir folhetos pela cidade inteira com a tal ‘difamação’?

Será que essa lei já está valendo? Ainda dá tempo de difamar e caluniar alguém dizendo simplesmente a verdade ou já temos que colocar freios no teclado?

Arranca aquele 'ferrinho' dali

Posted by Emilio Calil On janeiro - 22 - 2008 1 COMENTARIO

Impressionante como muitos técnicos de informática são tão ou mais picaretas do que aqueles vendedores de ervas milagrosas que vemos no centro da cidade. Ainda que você compre uma casca de árvore que dizem curar qualquer coisa, é provável que o efeito ‘placebo’ possa surtir algum benefício.

Já no caso da informática não há meio-termo. Ou funciona ou não funciona. Não se pode enganar o equipamento – mas pode-se enganar o usuário. Um amigo do serviço teve a placa-mãe do computador queimada no último final de semana, devido às fortes chuvas que caíram. Chamou o técnico, que foi testar os componentes e disse que ele precisaria arrumar outra placa-mãe idêntica para recuperar os dados do HD. “Mas você não pode ligar meu HD no seu micro, como slave, e fazer um backup?”, perguntou o amigo. “Ah, mas isso não funciona, tem que ser a mesma placa”, respondeu o assim intitulado técnico.

Como minha placa-mãe é idêntica à desse amigo, ele solicitou-a emprestada para fazer o backup. “Ué? Não é só ligar o HD em outro micro?”, perguntei. “Pois é, mas o técnico disse que não funciona”, afirmou. “Faz assim, testa VOCÊ o HD como slave em outro micro e se não funcionar eu empresto a minha placa”, rebati. Hoje ele veio dizer que a minha sugestão deu certo. Ou seja, o tal técnico não tinha feito coisa alguma. A falta de vontade, unida à falta de conhecimento, geram verdadeiros inúteis no ramo da assistência técnica de informática. Inúteis, porém, que extorquem os ingênuos sem o menor pingo de culpa.

Lembro de caso pior. Certa vez, na primeira agência de propaganda que trabalhei, tivemos problemas com a internet. Ficamos sem conexão o dia inteiro, então, o dono da agência chamou um pseudo-técnico, que veio, olhou micro por micro, mexeu nos cabos, ligou e desligou o modem e nada. Até reiniciou o servidor, sem sucesso. Como o dono da agência era judeu, havia afixado no batente da porta da agência um mezuzah (um pequeno rolo de pergaminho que contém duas passagens da Torá – entenda mais aqui). Ora, o técnico, sem conseguir resolver o problema, não teve dúvidas. Apontou para o mezuzah e disse: “É aquele ferrinho ali que está causando interferência na sua internet. Pode arrancar que resolve”. Eu me segurei para não rir e o dono da agência, boquiaberto, exclamou: “Você só pode estar brincando”. O técnico ainda insistiu na idéia, mas acabou indo embora, quase a pontapés. No final, o problema era com o próprio serviço de internet, que estava em manutenção na região.

E assim os charlatões, com ares de sabedoria, vão enganando os desavisados que, sem notar que os tais técnicos sabem tanto ou menos do que eles, desembolsam pequenas fortunas para que um ‘profissional’ reinstale o Windows, esvazie a Lixeira ou apague os cookies de internet.

Ao professor, minha gratidão

Posted by Emilio Calil On janeiro - 20 - 2008 3 COMENTARIOS

Disse em crônica passada que elogios nos incentivam a fazer um trabalho melhor. Mas há algo mais importante e que serve como indicador para melhorar o trabalho: as críticas. O elogio incentiva a fazer, a crítica mostra como fazer.

Diz o ditado: “Quem me elogia é meu inimigo; quem me critica é meu professor”. Sendo assim, tive muitos professores na vida. De parentes e amigos a chefes e desconhecidos, aprendi (e ainda aprendo) a enxergar meus defeitos. Não sou dono da verdade nem tenho opiniões imutáveis. Discordâncias são bem-vindas, pois abrem a mente para novos aprendizados. Relembro a seguir um de meus ‘professores’.

Trabalhei numa agência de marketing onde aprendi em um ano o que não aprenderia em quatro na faculdade. O diretor contratou-me como designer e jornalista. Fui logo avisando: “Sou melhor com design de web do que com impressos”. Estudei desenho técnico de comunicação, mas jamais fiz faculdade de desenho industrial. O que sei, aprendi fuçando em programas e observando outros profissionais. “Tudo bem” – disse ele. “Você cuida da web e eu contrato alguém para impressos”. Esse alguém jamais apareceu.

Como primeira tarefa, tive que criar um anúncio de revista – ou seja, material impresso. O design que um profissional levaria uma tarde para fazer, eu levei uma semana. Nervoso, cometia erro atrás de erro. “Vou considerar isso como adaptação no emprego, mas não pode se repetir” – disse ele. Lembrei-lhe da minha falta de experiência com impressos. “Bobagem, quem faz design pra web faz pra impressão e vice-versa” – retrucou. Eu sequer sabia fechar arquivo para gráfica ou criar faca especial, então ficava aterrorizado.

Toda segunda-feira tínhamos reunião logo cedo para definir projetos da semana, onde ele dissertava sobre métodos de trabalho. Um que não esqueço era o triângulo da eficiência: Qualidade, Tempo e Preço. Dizia que o trabalho perfeito equalizava esses três pontos. Se pendesse mais para um, os outros seriam prejudicados. Por exemplo, se fizéssemos algo rápido e barato, a qualidade seria inferior. Se priorizássemos qualidade, demandaria mais tempo e seria mais caro. Ao lado reproduzo o gráfico que ele costumava desenhar. Ainda hoje busco sempre esse ponto de equilíbrio em meus trabalhos. Ele também criticava ações comerciais das grandes empresas, dizendo que não faziam bom trabalho de marketing e que ele possuía os meios necessários para promover melhores vendas.

O diretor tinha alto nível de perfeccionismo. Tudo o que eu fazia era criticado. Verdade que fiz muita besteira, mas depois melhorei. As críticas vinham diariamente e eram pesadas. Ele criticava a mim e ao programador que trabalhava comigo, debatendo códigos, até. Se disséssemos que algo era impossível, ele pegava o trabalho pra si e fazia o impossível. Depois ouvíamos belos sermões – e com razão. Mas o que lhe sobrava em conhecimento técnico, faltava no trato com funcionários.

Não poucas vezes, recebi longos e-mails dele, literalmente acabando comigo, dizendo que eu não tinha técnica, que meu trabalho não era ‘vendedor’ e que eu teria de provar por que deveria continuar lá. Houve dias em que encontrava minha noiva depois do trabalho, caía em seu colo e dizia “não agüento mais, sou muito burro”, quase chorando de ódio. Como eu, sozinho, era o departamento de criação (fazia toda a arte e textos), era difícil acertar sempre. Mas aprendi a me antecipar às expectativas dele, dando o máximo de mim. Nessa época os ataques diminuíram – houve até elogios. Jamais rebati suas críticas. Ainda que eu tivesse razão, assumia a culpa e refazia o trabalho, afinal, o resultado ficava melhor. E perdi o medo de design de impressos.

Quando achei que estava indo bem, ele mudou as regras. Contratou outro designer e me deixou como jornalista de um site de automobilismo. Reduziu o salário pela metade e me propôs vender anúncios do site para compensar a diferença. Desnecessário dizer que jamais vendi anúncio sequer. Esse nunca foi meu métier. Se em design era ruim, em vendas fui um desastre. E escrever sobre algo que não gostava e não tinha conhecimento gerou mais críticas ao meu trabalho. “Com ou sem você, o site vai decolar”, dizia ele. Claro que isso anunciava algo que eu não ia esperar acontecer. Naquela época já disparava currículos. Tinha que sair de lá.

Assim, consegui novo emprego e mantive o site como freelancer. E pouco depois veio irrecusável proposta de outra empresa. Porém, o novo volume de trabalho me impediria de continuar com o site. Expliquei ao diretor da agência que pararia de escrever, senão o trabalho sofreria queda de qualidade. A resposta ainda ecoa na minha mente: “Piorar ainda mais é impossível, Emílio”. Mesmo assim, para não deixá-lo na mão, indiquei um amigo para a vaga. Esse amigo durou uma semana lá.

Adquiri trauma profundo daquele diretor. Sua simples presença na sala minava minha confiança. Este trauma carrego até hoje. Pensar em encontrá-lo por aí me assusta. Dá a impressão que ele me cobrará algum trabalho.

Mas isso foi positivo. Hoje exijo o mesmo perfeccionismo que ele me exigia. Não me contento com o ‘bom’, busco o ‘ótimo’. Sou incapaz de ir pra casa tendo trabalho inacabado e faço as coisas com paixão. Isso me rendeu muitos elogios na empresa, mas, de tanto que já fui criticado, eles soam sem importância. Claro que fico feliz, mas devo esses elogios às críticas daquele diretor. Ele é a minha referência. Quando crio algo, me coloco no lugar dele: “O que ele diria se visse isso?”

E com assombro soube que a agência dele fechou as portas neste ano. O pessoal que trabalhou comigo lá disse que ele passara quase oito meses investindo em coisas que não davam retorno – como o site de automobilismo. Um divórcio e a perda de clientes importantes o desnortearam, disseram, e iniciou-se o declínio rápido da empresa.

O leitor deve achar que nutro satisfação pelo ocorrido, depois de tudo o que passei. Só um imbecil se alegraria com isso. Espantou-me ver como alguém tão inteligente e perfeccionista, que criticava o marketing de multinacionais, não foi capaz de utilizar esse conhecimento a seu favor. Nem mesmo o triângulo da eficiência.

Mas o ocorrido serviu para que eu o visse de outra forma. Aquele que me criticava até assustar agora era um homem comum, com problemas. Sei que ele conseguirá se reerguer, ainda que não como empresário, mas em um bom emprego. Preocupo-me com os ex-funcionários – um deles foi pai ano passado. Tenho tentado ajudá-los com indicações.

O tempo que passei naquela agência serviu para que eu ganhasse confiança e dominasse mais assuntos. Estou longe de ser bom, mas aprendi a buscar o ótimo. Se hoje sou elogiado por exercer minha profissão com dedicação, comprometido com resultados e querendo sempre fazer melhor, devo grande parte disso às pesadas críticas de um ex-patrão, um dos melhores professores que já tive.

Sobre peixes e pescarias

Posted by Emilio Calil On janeiro - 16 - 2008 COMENTAR

Em meu dia-a-dia no trabalho, mantenho contato freqüente com a sede da empresa em Seattle, nos Estados Unidos. Ontem, conversando com a responsável por um projeto que estamos adaptando para o Brasil, ela perguntou se aqui o tempo estava quente. Respondi que estava quente demais, difícil até para dormir. Transcrevo o resto da conversa abaixo:

Ela: Aqui está muuuuito frio! Um pouco de calor ia bem.

Eu: Sorte sua, detesto calor. Um pouco de frio ia bem.

Ela: Haha, então vamos trocar nossos lugares de trabalho.

Eu: É pra já! Apesar de que tem havido chuvas fortes aqui esses dias, com enchentes.

Ela: Oh, espero que nada grave tenha acontecido com as pessoas.

Eu: Dê uma olhada aqui (enviei-lhe uma foto do Estadão que mostrava ônibus e carros numa rua alagada).

Ela: Está tudo inundado!

Eu: Sim, muita gente perdeu suas casas, especialmente os mais pobres.

Ela: Mas o governo não está fazendo alguma coisa para ajudar essas pessoas?

Eu: Se vamos falar do governo brasileiro, é bom que você tenha muito tempo livre.

Ela: Haha! Aqui também é assim. Nosso governo é muito, muito, muito ruim. Refiro-me ao Bush.

Eu: Honestamente? Mil vezes o Bush como presidente do Brasil do que o Lula.

Ela: Puxa, preciso pesquisar mais a respeito do Brasil para me informar melhor.

Eu: Nós temos potencial para ser uma grande nação, mas precisamos evoluir muito ainda. Queria que meu país aprendesse mais coisas com os Estados Unidos.

Ela: Você quer dizer sobre capitalismo?

Eu: Exatamente.

Ela: Capitalismo é meio injusto. Prefiro sociais democracias, como na Suécia ou outros países nórdicos, que cuidam de seu povo.

Eu: Sim, mas se um governo cuida demais do povo, o povo se torna preguiçoso. Temos um ditado: “Não dê peixe ao homem, ensine-o a pescar”.

Ela: Ótimo argumento. Não tinha pensado dessa forma.

(– pausa para ela refletir a respeito –)

Ela: Mas e se a pessoa não conseguir aprender a pescar, nunca terá chances contra os bons pescadores.

Eu: Nunca achei que o capitalismo fosse perfeito, mas, bem ou mal, é o melhor sistema econômico que existe atualmente.

Ela: Tem razão. O sistema perfeito seria o que ensinasse a pescar, mas que não ignorasse aqueles que não conseguissem aprender.

A conversa durou poucos minutos mais, fluindo para viagens, lugares favoritos e coisas assim. Assustou-me o fato dela, com muito mais conhecimento e experiência do que eu, pender para o socialismo sem ter embasamento forte para defender a idéia. Assustou-me não pelo fato dela viver nos Estados Unidos, mas por trabalhar em uma empresa que, não fossem as condições de liberdade econômica que o capitalismo oferece, seu fundador jamais teria alcançado o êxito que tem hoje e, tanto ela como eu, estaríamos em outros empregos. Mas louve-se a preocupação dela com as pessoas menos afortunadas, isso não há dinheiro que pague.

Ame-o ou deixe-o

Posted by Emilio Calil On janeiro - 14 - 2008 2 COMENTARIOS

“Você sempre fala mal do Brasil em teu blog”, reclamou minha noiva. “Só tem elogios para Estados Unidos e Europa, mas parece que detesta o Brasil”. Fiquei matutando a bronca dela por vários dias. Não foi a primeira vez que me disseram isso. O amigo Kosher-X (digitaldevilstory.blogspot.com), mesmo concordando comigo em muitos aspectos, adora refutar meus argumentos sobre a vida na Europa, em especial sobre a França: “Sabe por que o símbolo da França é o galo?” – pergunta. “Porque representa vigilância e valentia?” – respondo. “Não, é porque as ruas são cheias de m…”.

Já participei de debate onde discutiam o melhor lugar do mundo para viver, e chegaram a dizer que os problemas dos europeus são exatamente os mesmos dos brasileiros, mas que a imprensa esconde os fatos. Alto lá, cara pálida. Que a Europa não seja perfeita e tenha muitos problemas, concordo. Mas exatamente os mesmos do Brasil é argumento nacionalista sem embasamento. Afinal, o que não falta é gringo chegando aqui doido para visitar favela, já que não têm isso lá.

Nasci no Brasil, mas não há razão para jurar amor eterno e considerá-lo melhor do que outros países. Assim como é idiotice considerar outro país melhor do que o Brasil só pelo fato de ser outro país. Fosse assim, estaria me desmanchando em elogios ao Haiti, Iraque, Cuba, Uganda e tantos outros lugares miseráveis. Quando comparo, comparo com quem possui nível de desenvolvimento melhor do que o nosso nos quesitos tecnológico, político e cultural. De que adianta ser melhor que Ruanda? Agora, se olharmos para os EUA, temos muito a aprender.

Essas comparações já me renderam a alcunha de “lambe-botas dos americanos” e “paga-pau do imperialismo”, entre outras piores. Para alguns, o Brasil é o melhor país do mundo e não tem o que melhorar. Mas quando é para importar o pior de outros países, saímos na frente. Apesar de minha admiração pelos Estados Unidos como potência mundial e exemplo de liberdade econômica, não me atrai como lugar para viver. Fosse sair do Brasil, arriscaria Itália, Espanha ou outro país europeu com séculos de história.

Ao escritor e amigo Janer Cristaldo (cristaldo.blogspot.com), que morou quatro anos em Paris, certa vez questionei sobre a má hospitalidade dos franceses. Disse-me que jamais vivenciou isso, mas alertou para dois grandes erros cometidos pelos brasileiros: “Muita gente vai à França achando que encontrará a mesma baderna daqui. Esse é o primeiro erro, pois o francês é muito reservado, o que pode ser interpretado como grosseria. O segundo erro é chegar lá falando inglês. Apesar dos franceses dominarem o inglês, é quase um insulto falar inglês na França”. Por coincidência, Cristaldo publicou esses dias um artigo explicando por que fala tanto da Europa, mas vive no Brasil. Transcrevo um resumo:

Em primeiro lugar, no Brasil vivia a mulher que eu queria. Uma mulher que eu não trocava por todas as riquezas do mundo [...]. Em segundo lugar, na Europa eu seria sempre estrangeiro [...]. Em terceiro lugar, o preço do metro quadrado na Europa [...]. Em quarto lugar, o Brasil é um país que dá pra voltar e viver. Após meus quatro anos de Paris, quando desembarquei no Galeão e ouvi aqueles sons já quase esquecidos do português, devo confessar que fui acometido pelo famoso nó na garganta [...].

Meus amigos, hoje, estão em sua maioria em São Paulo [...]. Da gastronomia, não me queixo. Depois de Collor, tenho à minha disposição desde vinhos até arrozes que antes estavam fora do alcance de quem não fosse rico [...]. Música sofisticada é o que não falta aqui em casa. Vivendo no Brasil, tenho grana para viajar para qualquer parte do mundo [...]. Se tivesse dinheiro suficiente para morar confortavelmente em Paris ou Madri, é claro que não estaria aqui. Mas não tenho. E viver precariamente na Europa não tem muita graça.

Terei eu tanto ódio do país? De forma alguma. Não odeio o Brasil, considero bom lugar para viver, apesar de achar a grama do vizinho mais verde. Mas me reservo o direito de criticar aquilo que acho errado. Se critico muito, é porque vejo muita coisa errada. Não nutro grandes esperanças de melhorias, mas se o leitor por acaso se encaixar nas minhas críticas e repensar seu modo de agir, não terei escrito em vão.

Pra não dizer que só falo mal, o Brasil tem suas vantagens: A fartura de alimentos, por exemplo, com variedade de frutas, legumes, grãos, etc. No Japão, a idéia de churrasco com amigos é inconcebível. Imaginar que há gente passando fome aqui é contra-senso imenso. Apesar da imprensa nacional infestada de viuvinhas de Marx, ainda existe liberdade para se escrever o que quiser, ao contrário das nações socialistas. O Brasil também folga de ampla liberdade religiosa, onde cada pessoa pode professar sua fé sem maiores problemas, diferente da Irlanda ou Oriente Médio. Também aqui o racismo é tênue se comparado aos EUA – viu só? Critiquei os EUA!

Outra coisa que comparo é o respeito que instituições públicas e empresas privadas têm pelos cidadãos. Ainda que não sejam perfeitos, certos países tratam a pessoa com civilidade. Um atraso no vôo ou no trem é reembolsado, uma moeda perdida é devolvida – ainda que seja só uma moeda. Essas coisas fazem falta aqui, onde qualquer reclamação tem que ser feita na justiça.

Do povo brasileiro, no geral, não suporto a falta de educação, de cultura, a acomodação e a eterna dependência do governo. São coisas que podem melhorar, verdade, mas não viverei para ver. Também não me agrada o clima tropical do Brasil, mas aí é gosto pessoal – detesto calor. As exuberantes praias do nosso litoral não exercem o mesmo fascínio que, por exemplo, a chance de passar uma tarde em Viena, no café onde Mozart escrevia suas sinfonias. Aliás, belezas naturais não me atraem tanto quanto paisagens que se mesclam a belas arquiteturas. A Áustria é bom exemplo – digite “Hallstatt” no campo de busca do site brodyaga.com e entenderá o que digo. É possível que, estando na Europa, meu encanto desapareça. Ou se intensifique. Mas ir para lá é algo que preciso fazer antes de morrer, do contrário morrerei se não for.

O bordão “Brasil, ame-o ou deixe-o”, sem fundamento, substituí por “ame-o e melhore-o”. Resolvi ignorar as coisas que me irritam e deixei-me conquistar pelo que de melhor o Brasil, em especial São Paulo, me oferece. Se por enquanto não posso ir à Europa, criei meu próprio universo particular com tudo o que me agrada. E não foi preciso muito esforço. Voltarei ao tema.

Inteligência subliminar

Posted by Emilio Calil On janeiro - 11 - 2008 6 COMENTARIOS

Ainda recebo comentários em meu artigo que fala dos boatos sobre a personagem Hello Kitty estar vinculada a pactos obscuros e coisas assim – você pode lê-lo aqui. Uns me agradecem por esclarecer o assunto, outros se enterram ainda mais, chegando até a sugerir que eu esteja a serviço de forças malignas para proteger a verdadeira origem da personagem. Devaneios à parte, responderei as indagações que me fizeram para tentar lançar um pouco de luz ao tema. Transcrevo, ipsi literis, as perguntas, com minhas respostas na seqüência:

Escreve Jhessika:

MAIS SE VC PEGAR UM ROTULO DA COCA-COLA E LER ELE DO AVESO VERA Q ESTA ESCRITO ALO DIABO. COMO SE EXPLICA ISSO?!?!?!?!

Explico assim:

Cada um vê o que quer ou o que é induzido a ver. É como olhar formas nas nuvens. Eu enxergo “ALOC-ACOC”. Nem mais, nem menos. Até onde sei a Coca-Cola não possui nenhuma tubulação que extraia a bebida das profundezas do hades. Além do mais, isso de ler ao contrário só funcionaria em países de língua portuguesa ou espanhola, pois em inglês (predominante no mundo!), não teria significado algum. No máximo, você pode dizer que não é uma bebida saudável ou pode se juntar ao coro dos esquerdistas e xingar a coca de “líquido negro do capitalismo”.

Pergunta Abel Izidoro dos Santos:

Olhe pode até ser que essa historia não tenha nada a ver, mas como você explica essas coisas horrendas que estão acontecendo no mundo atualmente? Pode ser que o mal queira que acreditemos em você?

O mundo não está melhor hoje do que estava há 20 anos, e não estará melhor daqui a 20 anos do que está hoje. Rumamos a passos largos para um futuro onde a única certeza é que tudo piora. As “coisas horrendas” de que fala de fato vêm ocorrendo com mais freqüência. Mas responsabilizas uma gata branca com laço cor-de-rosa por isso? Se a eliminássemos do mundo cessariam as guerras, as tragédias, os assassinatos? Banir a Hello Kitty impediria vulcões de entrar em erupção ou que tsunamis destroçassem costas tropicais? Não é o homem – e unicamente o homem – responsável por suas ações? Ainda que se curve a sussurros nefastos de forças malignas, o livre arbítrio lhe permitiu escolher esse caminho. Serão uma marca de bebida ou um personagem de desenho mais responsáveis pelas desgraças mundiais do que o tráfico de drogas, a banalização do sexo ou a aniquilação dos valores morais da família? Isto ocorre por meio de ideologias assassinas (não marcas ou personagens) que arrancam do homem a fé e a espiritualidade, tornando-o um ser insípido, sem esperança e escravo de suas vontades. Isso sim deveria ser repugnado, mas muitos defendem essas idéias com toda a paixão. E sobre acreditar ou não em mim, tens o livre arbítrio para decidir.

Indaga Marcia Silva:

E sobre mensagens subliminares é verdade mesmo pois eu vi as fotos de filme da disney. é verdade mesmo ou é mais um engodo, ou foi pura montagem?

Leia a resposta abaixo dada à Amanda.

Diz Amanda:

olha eu acredito que a disnei e satanismo i pornagrafia infantil e [...] rei leao e principalmente pequena seria que e pura pornagrafia infatil olha na capa presta atençao vc vai ver um orgam sexsual do homen no castelopode dizer que e mentira e tudo tal mais ok percebe isso e a xuxa e ridicula ela especialmente fez pacto

Faltou mencionar a ‘faquinha do Fofão’. E também faltaram vírgulas, pontos, acentos e obedecer a todas as regras gramaticais. Acho divertido quando me perguntam coisas como se eu fosse um especialista no assunto. Não sou. Apenas me dei ao trabalho de ir atrás da veracidade do caso da Hello Kitty. Só isso. Sobre a Pequena Sereia, já conhecia essa história.

Existem duas versões desse desenho (como se vê ao lado) e, de fato, a imagem da esquerda assemelha-se ao órgão sexual masculino. Numa pesquisa rápida, encontrei duas explicações para isso. A primeira diz que o artista havia brigado com a Disney e, deliberadamente, desenhou um pênis no castelo. A segunda, mais aceitável, diz que o artista havia feito o pôster do filme para o cinema sem perceber a semelhança e, mais tarde, quando começou a se falar no assunto, ele refez o desenho para a capa da fita VHS. Daí as duas versões da imagem. Se essas histórias são falsas ou verdadeiras, ou se há outra explicação, jamais saberemos ao certo. Pode-se acreditar ou não. Melhor ainda, dê um pulo na locadora e confira de perto o desenho.

Sobre a questão de mensagens subliminares, como músicas tocadas ao contrário ou imagens transmitidas em frações de segundo, confesso que já acreditei mais nisso do que hoje. Aliás, jamais sofri o efeito dessa técnica ou conheci pessoa suscetível a isso. Quem estuda marketing conhece a história de um filme no qual foram intercaladas imagens com os dizeres “beba coca-cola” e que, ao término da exibição, as vendas do refrigerante no cinema aumentaram consideravelmente. Eu mesmo acreditei nisso. Mas vejamos:

A história do cinema, da coca-cola e da pipoca é uma farsa, admitida pelo próprio autor em uma entrevista publicada em 1962. E ninguém, nem mesmo o próprio James Vicary (o autor), conseguiu reproduzir a experiência até hoje.

Estímulos sensoriais abaixo do limiar de percepção objetivo, ou seja, fora do alcance dos sentidos, como um som fraco demais para ser captado pelo ouvido ou ininteligível como uma mensagem reversa, ou uma imagem rápida demais que não possa ser captada pelo olho, não causam absolutamente nenhum efeito a quem for sujeitado a eles.

Esses parágrafos foram extraídos de um excelente artigo que pode ser lido aqui – obrigatório para desmistificar muitos boatos. Claro, você também pode dar vazão à sua paranóia e ficar com medo de folhear revistas se der uma olhada neste site. Tudo é questão de bom senso e de se buscar a verdade acima dos mitos que circulam pela Internet.

Devo ressaltar que não ignoro a mensagem subliminar e seu uso na propaganda, mas questiono, sim, a eficácia desse método. Da mesma forma, também sei que há pessoas que pendem para o mal, para práticas torpes e inenarráveis. Acontece que, quanto mais se fala no assunto, quanto mais se espalham tais notícias, mais forças elas ganham. Se a única ‘evidência’ é a opinião de um amigo ou o texto recebido por e-mail, melhor faríamos ficando quietos em vez de sair acusando este ou aquele de algo que sequer podemos provar.

Professias se cumprindo

Posted by Emilio Calil On janeiro - 10 - 2008 COMENTAR

Escrevi este texto em abril de 2005. Segue abaixo um resumo, com atualizações minhas:

O ÚLTIMO A SAIR APAGA A LUZ
Recentemente (era março de 2005) estive no II Congresso Infra, evento que reuniu grandes nomes da engenharia para discutir as últimas tendências e processos de facility management [...]. Como o facility management tem por objetivo reduzir custos para as empresas, o levantamento com gastos em energia também faz parte do processo, sugerindo formas de economia e oferecendo alternativas de geração de energia. E foi justamente esse um dos temas abordados durante o congresso: Energia. O palestrante, Rodrigo Aguiar Lopes, membro da ABESCO, não fez muitos rodeios e pintou um quadro bastante preocupante para o país nesse setor [...].

De acordo com Rodrigo, o consumo de energia no Brasil vem crescendo em velocidade espantosa, enquanto a demanda permanece estagnada. Não é preciso muito para imaginar o que acontece quando você tenta extrair de uma tomada mais energia do que ela pode gerar. Para confirmar o fato, basta olharmos para os últimos meses (entre 2004 e 2005), onde voltamos a temer o famigerado “apagão”, que vem ocorrendo em diversas localidades do país [...].

O Brasil não tem um problema insolúvel de energia. Pelo contrário, há interesse, vontade e capacidade para resolvê-lo – por parte da iniciativa privada, claro. A atual política de Lula nesse setor vem se mostrando catastrófica e deixa de mãos atadas aqueles que podem ajudar. Em 2001, quando começou a história do “apagão”, o governo FHC tomou a medida mais racional: Começou a privatizar o setor, permitindo a entrada de várias empresas geradoras, que venderiam a energia sob diversas formas – uma padaria, por exemplo, que tem um consumo modesto, porém, maior do que uma residência, poderia comprar uma quantidade menor de energia, vinda de um fornecedor menor, enquanto grandes consumidores comprariam de grandes geradores. Isso criaria um impacto financeiro muito positivo, pois, desafogaria o governo e permitira às empresas privadas fornecerem serviços melhores e com valores diferenciados.

Porém, ao assumir a presidência, Lula disse que o programa de privatizações de FHC estava totalmente errado e, por isso, iria iniciar uma nova gestão. A iniciativa privada recuou nesse momento, cheia de incertezas sobre a nova administração, e manteve-se apenas como observadora. A idéia de Lula é manter a geração de energia centralizada no Estado, sob uma política patrimonialista, impedindo que empresas privadas busquem investidores externos para capitalizar recursos e construir usinas. O problema é que o governo não tem dinheiro para investir na geração de energia. E também não deixa ninguém mais investir, pois, não quer repassar os méritos para terceiros. É mais ou menos como a história do cachorro com o osso, que não come e não sai de cima.

Coincidentemente, segunda-feira passada (era 04 de abril de 2005) surgiu a notícia sobre uma possível escassez de energia em 2009, apenas para confirmar as previsões que ouvi durante o congresso, eliminando a hipótese de exagero. Longe de mim ser um “profeta do apocalipse”, mas vocês hão de concordar que o cenário é, no mínimo, preocupante [...]. Enquanto o governo não resolve o que fazer, a solução mais rápida tem sido os aumentos das tarifas. E podem esperar mais aumentos em espaços de tempo cada vez menores.

Hoje, 10 de janeiro de 2008, temos as seguintes notícias espalhadas em vários sites:

• Preços de energia elétrica e gás vão subir
• Agência prevê complicação energética no Brasil
• Térmicas têm gerado energia abaixo do esperado
• Especialistas prevêem racionamento de gás este ano
• Nível dos reservatórios no Sudeste cai para 44,6%, aponta ONS
• Ministro contesta diretor da Aneel e descarta novo apagão até 2009
• Agência prevê complicação do cenário energético no País
• Inpe também alerta para racionamento de energia
• Indústria já estuda medidas para evitar prejuízos de 2001
• Risco de apagão: Concessionárias alertam para possível aumento de energia

De dez notícias, apenas uma mostra um pensamento contrário ao apagão e racionamento, e justamente é a do ministro de Minas e Energia, Nelson Hubner, rebatendo a afirmação feita pelo diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, de que não é impossível um racionamento de energia este ano. Para um ministro, mesmo sendo engenheiro, desmentir a declaração do presidente da Aneel e ir contra todas as previsões atuais de especialistas com muito mais entendimento do que ele, das duas uma: Ou Hubner não tem a menor idéia do que está dizendo e sequer sabe o que faz nesse cargo, ou tem uma carta na manga que solucionará todos os problemas de energia no país. Há uma terceira opção: todos os engenheiros e especialistas da área de energia no Brasil fizeram um complô desde 2004 para desacreditar o governo Lula.

A escolha de uma dessas três opções fica a critério do Q.I. do leitor, respectivamente em ordem decrescente.

Voltam as obras e a vergonha aumenta

Posted by Emilio Calil On janeiro - 10 - 2008 2 COMENTARIOS

As pinturas de Pablo Picasso e Candido Portinari foram furtadas do Masp (Museu de Arte de São Paulo) por ladrões de carro que não passaram das primeiras séries do ensino fundamental nem tinham noção nenhuma de arte.

A trecho acima é da reportagem da Folha de S. Paulo (leia aqui). Ou seja, os quadros retornaram ao MASP e, junto com eles, a vergonha do museu por ter sido roubado por ladrões sem experiência alguma nesse segmento. Ladrões esses que, aliás, já tinham tentado entrar anteriormente no MASP e, por incrível que pareça, a ninguém ocorreu reforçar a segurança. Pelo contrário, no dia do roubo os alarmes estavam desligados.

A polícia fez bem-feito o trabalho que lhe competia, mas nem sei se posso parabenizá-la por isso, visto que prender pés-rapados não é um feito tão louvável assim.

Triste ver o desleixo com que nossa cultura e obras de arte são encaradas. E é capaz desse marketing negativo servir até para aumentar as visitas ao museu, já que prevejo pessoas que jamais puseram os pés no MASP fazendo fila para ver as ‘obras roubadas’.

Duas leis, dois exemplos de falta de inteligência

Posted by Emilio Calil On janeiro - 8 - 2008 5 COMENTARIOS

Seguem abaixo duas leis que entram em vigor em São Paulo, com meus respectivos comentários em seguida.

Lei Municipal Nº. 14.642 De 18.12.2007: Dispõe da proibição de uso de portas giratórias e detector de metais para acesso ao interior de bancos e demais instituições financeiras.

Fonte: Administração do Site, D.O.C, de 21.12.2007. Pg. 164.

21/12/2007

Antonio Carlos Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, faz saber que a Câmara Municipal de São Paulo, de propor acordo com o § 7º do artigo 42 da Lei Orgânica do Município de São Paulo, promulga a seguinte lei:

Art. 1º Fica estabelecida a proibição do uso de portas giratórias em vidro ou qualquer outra modalidade de produto, bem como a instalação de detector de metais, no acesso a bancos comerciais, estaduais e outros estabelecimentos financeiros na cidade de São Paulo.

Art. 2° As instituições financeiras terão prazo de 120 (cento e vinte) dias para se adaptarem à nova legislação, bem como buscar mecanismos de segurança que substituam as portas giratórias.

Art. 3° Ficam proibidos quaisquer mecanismos que inibam, constranjam, humilhem e desrespeitem a pessoa humana.

Art. 4° (VETADO)

Art. 5° As instituições que desobedecerem esta lei ficam sujeitas à multa de 5.000 UFIRs, sendo cobrada em dobro em caso de reincidência.

Art. 6° As despesas decorrentes da execução desta lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário.

Art. 7° Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Câmara Municipal de São Paulo, 19 de dezembro de 2007.

O Presidente, Antonio Carlos Rodrigues Publicada na Secretaria Geral Parlamentar da Câmara Municipal de São Paulo, em 19 de dezembro de 2007.

O Secretário Geral Parlamentar, Breno Gandelman

Esta lei acaba de institucionalizar o crime. Não que portas giratórias ou detectores de metais sejam muito eficientes, mas proibi-los sob a desculpa de que tais equipamentos “constrangem” as pessoas é apelar para o detestável comportamento ‘politicamente correto’, que nada tem de útil e impede que as pessoas sejam elas mesmas.

Este é ano de eleições. Ao escancarar as portas dos bancos, a lei dá a impressão de que alguns partidos precisam de verbas para suas campanhas e, por isso, necessitam de acesso fácil à fonte. Como disse no meu texto anterior, temos hoje políticos que ocupam cargos importantíssimos e que, em seu passado, foram assaltantes de bancos, seqüestradores e guerrilheiros. Engana-se quem acha que falo somente do PT, pois a abrangência desses políticos não se limita a um único partido. Mas, enfim, não pretendo dar nomes aos bois.

Lei Municipal Nº. 14.638 De 18.12.2007: Proíbe o ato de fumar ao volante e dá outras providências.

Fonte: Administração do Site, D.O.C, de 21.12.2007.Pg.164.

21/12/2007

Antonio Carlos Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, faz saber que a Câmara Municipal de São Paulo, de acordo com o § 7º do artigo 42 da Lei Orgânica do Município de São Paulo, promulga a seguinte lei:

Art. 1º Fica proibido a qualquer cidadão, dentro dos limites territoriais do Município de São Paulo, fumar cigarro, cigarrilha, charuto e cachimbo quando estiver conduzindo a direção de veículo automotor.

Art. 2º Os proprietários de automóveis que infringirem o disposto nesta lei sujeitar-se-ão à multa no valor de R$ 85,13 (oitenta e cinco reais e treze centavos), estabelecida através de decreto pelo Poder Público Municipal.

Parágrafo único. A multa de que trata o “caput” deste artigo será atualizada anualmente pela variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA, apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, acumulada no exercício anterior, sendo que, no caso de extinção deste índice, será adotado outro criado pela legislação federal e que reflita a perda do poder aquisitivo da moeda.

Art. 3º As despesas decorrentes da execução desta lei correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário.

Art. 4º Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário, devendo ser regulamentada em 60 (sessenta) dias.

Câmara Municipal de São Paulo, 19 de dezembro de 2007.

O Presidente, Antonio Carlos Rodrigues Publicada na Secretaria Geral Parlamentar da Câmara Municipal de São Paulo, em 19 de dezembro de 2007.

O Secretário Geral Parlamentar, Breno Gandelman

Outra lei imbecil. Não fumo, detesto cigarro e não suporto que fumem perto de mim. Ainda assim, jamais me ocorreu tirar a liberdade dos fumantes – nada tenho contra eles, apenas contra o cigarro. É claro que a fumaça incomoda, e para isso existem áreas específicas para fumantes em estabelecimentos comerciais. Mas proibir a pessoa de exercer esse direito dentro de seu próprio veículo vai contra inúmeros princípios.

A França recentemente acabou com a liberdade dos fumantes em todos os estabelecimentos comerciais. É praticamente proibido fumar em Paris e nos poucos espaços reservados aos fumantes, os garçons não poderão servi-los. Compreende-se a atitude francesa pelo fato de resguardar locais públicos – ainda que tenha gerado polêmica. Mas São Paulo proibir o fumo dentro do próprio veículo da pessoa não tem cabimento. Se a desculpa for que o cigarro tira a concentração, mostrem-me então algum acidente causado porque o motorista estava fumando. Se assim for, proibamos os rádios nos carros também. E se em vez de cigarro a pessoa estiver com um pirulito na boca? A lei também não menciona ‘baseado’, será que pode?

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