Dentre as citações de Sócrates, uma das que mais gosto é “nada vos ensinei que vós mesmos já não o soubessem”. O filósofo grego fazia questão de não entregar as respostas a seus ouvintes, mas fazia-os chegar a conclusões por si próprios, utilizando seqüências de raciocínio. Assim, ao mesmo tempo em que Sócrates dizia “só sei que nada sei”, ensinava às pessoas coisas que elas já sabiam, mas que até então ignoravam. Ou seja, não aprendiam nada de novo, a não ser usar os próprios cérebros.
Diametralmente oposto aos métodos de Sócrates está o fato de se aprender o óbvio em pseudo-lições recauchutadas e disfarçadas de “brilhante descoberta”. Falo dos livros de auto-ajuda. A fórmula é manjada e volta e meia conquista a atenção do grande público que, ignorando as prévias encarnações, abraça as novas roupagens da mesma idéia como se fosse algo novo.
Certa vez, um amigo emprestou-me A Chave Mestra das Riquezas, de Napoleon Hill. O autor pode ser considerado o “pai” do gênero de auto-ajuda. Apesar de existirem precursores do tema, Hill foi um dos primeiros a organizar os pensamentos e publicá-los em forma de regras (Lair Ribeiro é seu discípulo direto, copiando descaradamente quase todas as obras de Hill).
No livro, Napoleon Hill apresenta um conjunto de filosofias que farão a pessoa obter sucesso na vida. Em certos capítulos, o texto chega a assumir ares místicos, evocando forças invisíveis que trabalham em favor de quem mantém o pensamento positivo sob qualquer circunstância da vida.
Longe de mim ridicularizar tal atitude, pois considero essencial a fé e o bom-humor como ferramentas para enfrentar os revezes do cotidiano. Mas não posso aceitar que as pessoas acreditem ser essa uma recente fórmula mágica e inovadora para a solução de todos os problemas do mundo.
Nada do que Hill mostra é novidade. Por exemplo, sabemos que um funcionário só se destaca quando se esforça para além da obrigação. Hill chama isso de “caminhar um quilômetro extra”, ou seja, assumir mais responsabilidades sem almejar reconhecimento, pelo bem da empresa. É óbvio que a chance desse funcionário ser recompensado aumentará. Mas antes de Hill, o ex-presidente dos EUA, Abraham Lincoln, tinha feito a mesma descoberta quando disse, lá pelos idos de 1800, que “o homem que trabalha somente pelo que recebe, não merece ser pago pelo que faz”.
E agora a auto-ajuda ganha novamente o destaque na mídia, mostrando as mesmíssimas coisas, mas com ares de descoberta do século. Outro dia uma amiga me disse: “Você precisa ler O Segredo, esse livro mudou minha vida”. Então disparei a pergunta: “O livro ensina alguma coisa que você já não soubesse?”. E ela: “Bem, não… Mas ele descreve as coisas de uma maneira nova”. Nova para quem? Não para mim.
O tal Segredo, da australiana Rhonda Byrne, prega, outra vez, a força do pensamento positivo, nos mesmos moldes de Napoleon Hill. E os desavisados correm ávidos às livrarias para descobrirem, novamente, tudo o que já sabiam e poderem exclamar: “Puxa! Como não pensei nisso antes?”. Pior, alguns acham até que estão adquirindo cultura apenas por portarem o livro!
O que espanta é ver a auto-ajuda encarada quase como religião. Milhares de pessoas, que querem se apegar em algo para crer, acabam fisgadas por autores espertalhões que lhes dizem o que já sabiam, mas, ao contrário de Sócrates, não estimulam o raciocínio.
O mais engraçado é que vemos um crescente repúdio mundial às religiões, com deboches de quem se diz cristão, budista, etc., ao mesmo tempo em que se abraça a auto-ajuda. Ora, o leitor atento perceberá que as filosofias da auto-ajuda são fundamentadas em doutrinas religiosas, com a diferença que excluíram Deus e colocaram o indivíduo como centro do universo.
Maior ironia é vermos crentes (de qualquer religião) caírem no conto da auto-ajuda. Qualquer um que siga realmente os ensinamentos de sua fé já obedece a princípios que suplantam aos da auto-ajuda, mas parece que muitos precisam beber em outras fontes para descobrir o óbvio.
No meu caso – e essa é uma visão pessoal – a auto-ajuda não mostrou absolutamente nada que eu já não soubesse e me espantei em ver pessoas maravilhadas com as “descobertas” desses livros, quando as mesmas já estão presentes justamente nas tão criticadas religiões. Claro, todo mundo tem o direito de acreditar naquilo que quiser, ou mesmo não acreditar em nada. Mas não me venham dizer que existe um “segredo” por aí, porque de secreta a auto-ajuda não tem nada.
Ou melhor, existe sim um segredo. Como livros de auto-ajuda conseguem fazer tanto sucesso contando a mesma história centenas de vezes e fazer com que as pessoas acreditem que se trata de algo inédito?
