Ano passado escrevi um texto desmentindo uma mensagem que circulou por um tempo nos e-mails de muita gente, na qual se avisava que o 13º salário seria extinto. Pura bobagem que não tinha utilidade nenhuma a não ser se beneficiar de leitores desavisados e fazer-lhes a cabeça para se tornarem adeptos dos terroristas partidos de esquerda.
Agora, uma idiotice semelhante chamou minha atenção na última semana, forçando-me a pesquisar melhor um assunto que, apesar de ridículo, merece uma explicação para que os ingênuos não saiam por aí acreditando em engodos infantis sem nem mesmo procurar saber se a informação que lhes chega é verídica.
Para vocês entenderem: Conversava com minha noiva semana passada e ela me perguntou se eu conhecia a história da Hello Kitty. “Que história?”, perguntei. “A história de uma mulher que tinha um filho com câncer na boca e vendeu a alma para curá-lo e, em troca, criou a Hello Kitty como uma marca para espalhar pelo mundo a imagem do mal”. É provável que vocês, leitores, já tenham ouvido falar nisso, mas para mim a coisa era novidade. Tudo começou porque minha noiva colocou um papel de parede da Hello Kitty no micro do trabalho, e seus colegas a advertiram sobre a “verdadeira” história por trás da tal gata.
Comecei, então, uma busca sobre o assunto e encontrei a seguinte explicação, perdida em um site:
Havia uma menina de cerca de 14 anos q estava em fase terminal de câncer de boca. Os médicos já haviam tirado todas as esperanças da família em relação à cura da garotinha.
A mãe da menina, desesperada, tomou uma decisão insana. Fez um pacto com o demônio: consagrou a menina ao demônio para que ele a curasse e, como promessa, criaria uma marca que afetaria todo o mundo (no caso, a Hello Kitty).
Posteriormente o demônio curou a garotinha, e a mãe cumpriu o que havia prometido: criou a Hello Kitty.
A palavra Hello, em inglês, quer dizer “olá”, e a palavra Kitty, de origem chinesa, quer dizer “demônio”. Logo, Hello Kitty quer dizer: “Olá demônio”.
Vocês podem perceber que a Hello Kitty não tem boca, devido ao caso da garotinha ter o câncer de boca.
A Hello Kitty é um símbolo da Nova Era. A Nova Era é uma seita que vai contra todos os princípios de Deus. Ela busca criar símbolos “bonitinhos” para agradar a todos.
Esse texto é uma das coisas mais absurdas e desconexas que já li. Um verdadeiro festival de besteiras cujo único propósito me parece ser desacreditar a Sanrio, empresa detentora da marca da Hello Kitty. Em primeiro lugar, não existe referência a essa história em lugar algum a não ser sites brasileiros. Procurei em sites americanos, franceses, espanhóis e italianos e nada. Para uma história que se pretende verídica, o mínimo que se espera é que tenha repercussão mundial. Ou será que nós, brasileiros, fomos os únicos a ter acesso a tal revelação?
Nutro esperanças de que nenhum brasileiro se aventure a divulgar essa besteira em outros países e nos faça passar vergonha, pois, já disse aqui antes que nós não monopolizamos a estupidez, mas nos esforçamos para conquistar esse título.
Voltando à história da Hello Kitty, diverte o fato de misturarem dois idiomas diferentes (inglês e chinês) para explicarem a origem do nome da gata. A tradução de “hello” está certa, mas o “kitty” é de doer – especialmente porque a empresa Sanrio é japonesa. Ainda assim, existem duas palavras que significam demônio em chinês: “wu gui” e “wu mo”. A primeira é composta pelos ideogramas que significam “mal” + “diabo”. A segunda é composta por “mal” + “magia”. Em mandarim são “e-gui” e “e-mo”. A palavra “kitty” não significa demônio em nenhum idioma do planeta.
O fato da Hello Kitty não ter boca é outra palhaçada. Quem conhece desenhos japoneses sabe que muitas vezes os artistas suprimem a boca dos personagens para destacar a expressão nos olhos – a boca fica subentendia. É coisa comum por lá. Desde a primeira vez que vi o desenho da tal gata, jamais pensei que ela não tinha boca, mas sim que estava de boca fechada. A imagem ao lado mostra que, quando necessário, a gata usa sua boca.
O último parágrafo, que faz referência à “nova era”, parece estar ali gratuitamente. Não é auto-explicativo e nem possui referência que justifique tal afirmação. Triste é ver menções a Deus em besteiras assim, apenas para tentar dar credibilidade às insanidades.
Em tempo: A Hello Kitty é o bem sucedido resultado do trabalho da designer Ikuko Shimizu para a empresa Sanrio, sediada em Tóquio, Japão. Os primeiros itens foram lançados no mercado em 01 de novembro de 1974. Um ano depois, Ikuko Shimizu deixou a empresa e foi substituída por Setsuko Yonekuboe. Desde 1980 a responsabilidade pelo design da personagem é de Yuko Yamaguchi.
Fica claro que essa mensagem absurda é uma forma de protesto contra o sucesso da marca. Não é novidade, especialmente no Brasil. Estamos tão acostumados à corrupção e mediocridade que, quando um conhecido é promovido na empresa ou alcança um sucesso financeiro, perguntamos quem ele roubou para chegar aonde chegou. Mérito próprio, esforço, dedicação, reconhecimento pelo trabalho e até uma bênção estão fora de questão.
O mesmo vale para outras marcas famosas. O fato de multinacionais como Coca-Cola e Microsoft serem detentoras de enorme sucesso econômico só pode ser porque seus líderes fizeram algum pacto maligno para serem bem sucedidos. Já que nós não temos capacidade para nos igualar a eles, atiremos pedras.
Não digo que não existam pessoas que façam pactos ou vendam a alma visando sucesso pessoal – afinal, o que não falta no mundo é a tendência para o mal. Mas estes são pobres coitados que chafurdam em sua própria desgraça. Entretanto, cabe o mínimo de bom senso a quem se pretende culto e civilizado para discernir uma história verdadeira de um boato ridículo e sem fundamento.
Portanto, se você está com medo de usar uma mochila da Hello Kitty ou vira o rosto quando vê a imagem da gata estampada em algum lugar, pode respirar aliviado. Ela é apenas fruto de uma idéia de marketing. Seria bom se nós, antes de amaldiçoarmos as trevas, lembrássemos primeiro de agradecer pela luz.
Foto: Cartoon Network