Se perguntar ao seu pai se, na época da juventude dele, a vida era melhor, terá uma enfática e afirmativa resposta. Repita a pergunta para seu avô, e terá a mesma resposta. Então você conclui que, se a vida era melhor na época do seu pai, e melhor ainda na época do seu avô, a sua é uma catástrofe. A bem da verdade, seu próprio filho poderá, um dia, lhe fazer essa pergunta, e você se verá repetindo as respostas do seu pai e seu avô.
Acreditar que a vida era melhor em nossa época de juventude não significa, necessariamente, que isso seja verdade. O que muita gente faz é supervalorizar certos momentos da infância, atribuindo-lhes qualidades que, muitas vezes, existem apenas na lembrança. Uso a mim mesmo como exemplo: coleciono videogames. Tenho jogos que fizeram parte da minha infância e pelos quais nutro carinho especial. Então, quando surgem novos jogos, com recursos visuais sofisticados e diferentes daqueles que povoaram minha juventude, é comum eu torcer o nariz e dizer “bah! os jogos antigos eram melhores!”. Eram mesmo?
A vantagem de ser colecionador é que posso voltar no tempo quando quiser. Assim, muitos “jogos melhores” do passado mostraram-se não tão melhores quando jogados novamente, à luz da atualidade. É verdade que alguns continuam tão bons quanto antes, mas outros simplesmente perderam o encanto, pois eram melhores apenas nas minhas lembranças.
Se com uma coisa banal como videogames é possível quebrar esse paradigma, que dizer de quem afirma que a vida toda antigamente era melhor? Claro que essa afirmação não está inteiramente errada, mas não se pode generalizar. Eu prefiro acreditar que as pessoas eram melhores, ou pelo menos tinham mais respeito umas pelas outras. Havia um respeito maior entre pais e filhos, alunos e professores, patrões e empregados – claro, sem generalizar, pois sempre há exceções.
Meu pai, que viveu sua infância nas décadas de 30 e 40, conta que ele e uns amigos se encontravam à noite, na rua, para fumar escondido. E sempre que passava um guarda, eles se apressavam em apagar o cigarro, com medo de passar uma imagem errada. Ora, a não ser por imposição dos pais, os jovens nunca foram proibidos de fumar, mas isso mostra o comportamento da época diante de uma autoridade. Hoje, alunos espancam professores em salas de aula e ninguém dá a mínima. E nem é preciso ir tão longe, voltando 20 anos no tempo já notamos essa diferença.
Muitos lembram da vida mais simples, jogando bola em campos de terra, subindo em árvores para comer fruta, etc. De fato, coisas boas ficam marcadas. Mas e as dificuldades? E o trabalho de tirar água do poço? E o fato de os banheiros serem cabanas externas sem ligação com as casas? E os ferros de passar roupa, aquecidos a carvão? E se você ficasse doente, qual era o hospital mais próximo?
Há pouco tempo minha noiva e eu almoçamos na casa da minha avó. Passamos uma tarde agradável com ela, que contava suas peripécias de meninice na roça. Ela falou de como o pai lhe ensinou a ler e escrever, dos animais que tinha no sítio, das épocas de plantação e colheita, das longas milhas percorridas a cavalo, da primeira vez que viu a cidade grande, etc. Minha noiva então perguntou: “A senhora tem saudade daquela época?”, e a resposta: “Eu não! Hoje em dia a gente tem tanto conforto, tanta comodidade, a vida antes era muito difícil”. Palavras de uma senhora de 85 anos.
Dia desses estava no ônibus e comecei a prestar atenção na conversa de uma senhora idosa. Essa senhora dizia à amiga: “Tem gente que fica falando que antigamente tudo era melhor. Mentira! A vida era mais dura, mais difícil”. A doce senhora continuava: “Quando alguém fala que antigamente era melhor, eu logo pergunto se ele conseguiu comprar uma casa naquela época. Se não comprou, então a vida não era melhor, porque ele não soube ganhar nem juntar dinheiro”. Intrigado, continuei ouvindo a explicação: “Antigamente ninguém tinha carro, nem televisão, nem computador, nem nada disso. Então, se você ganhou dinheiro e não investiu em imóvel, não soube aproveitar a vida. E se não ganhou tanto dinheiro numa época que era mais fácil do que hoje, então a vida não era melhor pra você”. Raciocínio brilhante para uma senhorinha com seus setenta e poucos anos.
E ela continuava, empolgada: “Hoje tá cheio de vagabundo por aí. Ninguém quer se esforçar pra conseguir nada, fica tudo esperando o governo trazer comida na boca. Você vê até artista desempregado porque se recusa a aceitar outro emprego. O que tem de mais em varrer chão? Eu, graças a Deus, trabalhei muito na minha vida, juntei um dinheirinho e estou aproveitando minha aposentadoria. E se aparecer a necessidade, não tenho vergonha de pegar numa vassoura ou ir passar roupa para sobreviver”. Quase comecei a aplaudir a velhinha. Infelizmente tive que descer no ponto e não ouvi o fim da conversa.
A vida antes era melhor? Para muitas pessoas ela pode ter sido mais simples, menos complicada; mas não necessariamente melhor. Muita gente passou necessidades, viveu uma vida sofrida e árdua. Hoje, lembram com saudade daquela época, mas dentro de suas casas, em confortáveis sofás, comendo bolachas e assistindo à novela das oito. Ficássemos presos à “vida melhor” de antes, estaríamos ainda nos deslumbrando com o telégrafo, veríamos as primeiras casas com luz elétrica e água encanada, imaginaríamos se era possível ao homem construir uma máquina que pudesse voar. Ficássemos presos à “vida melhor” de antigamente, você não estaria lendo este texto agora.